Transações e esquemas fiscais pouco transparentes ou extorsão podem estar na origem da misteriosa riqueza do agressor sexual.
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Aos 23 anos, Jeffrey Epstein era um simples professor de Matemática num colégio privado em Nova Iorque, mas em pouco tempo tornou-se consultor de negócios para algumas das famílias mais poderosas e ricas dos EUA. Quando morreu na prisão, em 2019, o predador sexual tinha, segundo a revista ‘Forbes’, um património estimado em cerca de 578 milhões de dólares (cerca de 490 milhões de euros) que incluía propriedades de luxo, depósitos e investimentos financeiros. Todavia, persistem muitas dúvidas sobre a origem da fortuna pessoal de Epstein. Os investigadores põem duas hipóteses: ou a riqueza resultou de uma combinação muito vantajosa de contactos pessoais e transações financeiras opacas, ou, num cenário bem mais polémico, Epstein gravava secretamente multimilionários a cometer crimes sexuais com menores e, depois, chantageava-os. Neste caso, o trabalho como consultor de investimentos seria apenas uma fachada para um esquema de extorsão.
Ao contrário de gestores financeiros convencionais, Epstein operava com um número muito reduzido de clientes e dois deles - Les Wexner, ex-CEO da Victoria’s Secret, e Leon Black, gestor de participações privadas e colecionador de arte - representavam mais de 75% dos lucros obtidos pelo agressor sexual entre 1999 e 2018.
Les Wexner é referido mais de mil vezes nos arquivos de Epstein. Inclusive, Virginia Giuffre, que acusou o ex-príncipe André de abuso sexual, alegou que o milionário foi um dos homens a quem foi traficada quando ainda era menor. Contudo, Wexner, de 88 anos, nega ter conhecimento dos crimes sexuais do pedófilo, ou de ter participado nos abusos sexuais. “Fui ingénuo, tolo e crédulo ao confiar em Jeffrey Epstein. Ele era um trapaceiro”, disse perante o Congresso.
Wexner foi considerado um “coconspirador” de Epstein pelo FBI em 2019, aparecendo na mesma lista que Ghislaine Maxwell, Leslie Groff, Jean-Luc Brunel.
Pais em pânico lançam petição
A ligação de Leon Black a Jeffrey Epstein, registada nos documentos recentemente divulgados pelo Departamento de Justiça (DOJ) dos EUA, está a causar o pânico em várias famílias norte-americanas. É que Black era presidente da Apollo Global Management, gigante do capital privado que, por sua vez, era dona da Lifetouch, a maior empresa de fotografia escolar do país.
Pais preocupados com o destino das imagens dos seus filhos juntaram-se a deputados e senadores e lançaram uma petição para que sejam suspensos imediatamente todos os contratos da Lifetouch com as escolas públicas dos EUA. Além disso, é exigida “uma investigação completa, formal, pública e transparente sobre como as fotografias e outros dados pessoais dos alunos podem ter sido usados, acedidos ou utilizados de alguma forma por Leon Black, Jeffrey Epstein e/ou seus associados, especificamente se e como esses materiais podem ter sido acedidos por tecnologia de inteligência artificial [IA] e para quais fins”.
A relação de Epstein com Leon Black - que também era membro do conselho do Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova Iorque - começou na década de 1990 e continuou mesmo após a condenação do primeiro em 2008, por aliciar uma menor para prostituição. Nos ficheiros divulgados pelo DOJ existem alegações de que Epstein mandou uma jovem massajar Black, que estava “nu”, e que este a obrigou a fazer sexo oral.
Desde a morte do pedófilo, em 2019, que Black, atualmente com 79 anos, tem vindo a enfrentar vários processos de mulheres que o acusam de abuso sexual, embora alguns tenham sido arquivados. O mais recente foi em 2023, quando uma mulher autista acusou o colecionador de arte de a violar na mansão de Epstein em Manhattan, em 2002, quando ela tinha 16 anos.
PORMENORES
Conta
O empresário Leon Black, de 74 anos, dono da empresa de capitais privados Apollo Global Management, pagou a Epstein 147 milhões euros entre 2012 e 2017, segundo uma investigação independente da firma de advogados Dechert LLP.
Ganhos
De acordo com o jornal ‘New York Times’, Epstein cobrou, pelo menos, 490 milhões de dólares (cerca de 422 milhões de euros) em honorários, sendo as restantes receitas provenientes de investimentos próprios.
Procuração
Epstein conheceu Wexner pela primeira vez em 1986. Pouco tempo depois, o bilionário confiava-lhe a gestão da sua vasta fortuna, através de uma procuração que lhe permitia fazer investimentos, negócios e comprar propriedades. Juntos, enriqueceram-se um ao outro.
Cenário de horror e paraíso fiscal
Analistas do caso Epstein demonstraram que o agressor sexual acumulou riqueza praticamente sem pagar impostos, graças a generosos benefícios fiscais nas ilhas Virgens Americanas, onde se tornou residente em 1996 e onde criou a empresa de consultoria Financial Trust Company. Dois anos depois gastou quase 7 milhões de euros para comprar Little St. James, que se tornou conhecida como ‘ilha dos pedófilos’.
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