Cerca de 30% das empresas consideram que a guerra no Médio Oriente constitui um risco de subida para o crescimento salarial.
As maiores empresas da zona euro preveem fortes aumentos de preços se a guerra no Médio Oriente não terminar em breve, mas antecipam um crescimento salarial moderado, segundo um inquérito do Banco Central Europeu (BCE) divulgado esta segunda-feira.
As empresas afirmaram que "o aumento do preço do petróleo em março foi rapidamente repercutido nos preços de venda da maioria dos bens e serviços que dependem do petróleo, mas a repercussão mais ampla poderá ser mais gradual do que no passado", referiu o BCE, após ter auscultado representantes de 67 empresas líderes da zona euro, entre 23 de março e 01 de abril.
As empresas de transporte aéreo, logística, química, de plásticos e de embalagens afirmaram que aumentaram os preços de venda, frequentemente em valores de dois dígitos (o que significa pelo menos 10% ou mais), em março, ou que anunciaram esses aumentos para o segundo trimestre.
Em alguns casos, as cláusulas contratuais facilitaram estes aumentos, uma vez que previam ajustamentos automáticos em resposta ao encarecimento da energia, afirmou o BCE.
Estas cláusulas são agora mais comuns do que quando a Rússia invadiu a Ucrânia, porque as empresas aprenderam com a experiência.
"Ao mesmo tempo, as empresas, pelo menos as grandes, tendem a estar mais bem protegidas contra as flutuações dos preços da energia do que em 2022", acrescentou o BCE.
Esta proteção deverá limitar de alguma forma o impacto do aumento dos preços da energia a curto prazo.
Mas se a guerra no Médio Oriente não terminar em breve, criará uma interrupção na cadeia de abastecimento, exercerá uma pressão significativa para o aumento dos preços e reduzirá a procura, preveem as empresas consultadas.
Da mesma forma, consideram que um conflito que se prolongue por meses em vez de semanas, com o estreito de Ormuz bloqueado e mais ataques às infraestruturas de petróleo e gás, resultará numa escassez global, não só de combustível, mas também de muitos produtos que requerem derivados do petróleo na produção.
As empresas mostraram-se preocupadas com a possível escassez de hidrogénio, utilizado na produção de fertilizantes, e de hélio, utilizado para arrefecer as pastilhas na produção de semicondutores, bem como para soldar cobre e níquel em muitas indústrias de alta tecnologia.
"Uma interrupção do abastecimento desta natureza poderia gerar uma pressão inflacionista semelhante à observada durante a pandemia da covid-19", segundo as empresas consultadas pelo BCE.
No entanto, haveria alguns fatores que atenuariam as pressões inflacionistas, uma vez que a procura global se encontra agora fraca, visto que a procura na China está contida, ao contrário do que aconteceu durante a pandemia.
Além disso, não haveria mudanças bruscas no consumo de bens e serviços e o apoio orçamental será provavelmente mais limitado do que durante a pandemia.
A principal preocupação para a maioria das empresas é o impacto que a guerra no Médio Oriente pode ter na confiança do consumidor e na procura final do consumidor.
Desta forma, as empresas da zona euro antecipam uma moderação do crescimento salarial.
Em média, preveem que o crescimento salarial desça para 2,9% em 2026 e 2,8% em 2027, face aos 3,5% em 2025.
No entanto, 10% das empresas com as quais o BCE mantém contacto reviram em alta as expectativas de crescimento salarial para 2027, tendo em conta a guerra no Médio Oriente.
Cerca de 30% das empresas consideram que a guerra no Médio Oriente constitui um risco de subida para o crescimento salarial.
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