Sharon Dolev é uma voz solitária contra as armas atómicas em Israel onde a questão é tabu.
Sharon Dolev: 'Não há legitimidade para atacar o Irão por causa do seu programa nuclear'
Opositora ao armamento nuclear em Israel, país que, oficialmente, não o confirma ter, Sharon Dolev considera que “há vários estados que, se o desejarem, estão a semanas, meses ou até a um ano de conseguir uma bomba nuclear. E ninguém os está a atacar ou a impor-lhes sanções”. Em entrevista ao CM, a partir de Telavive, defende que “a única forma de lidar com o programa nuclear do Irão é através da diplomacia”.
Para ser sincera, não sei. Somos uma sociedade muito militarizada. O Estado [de Israel] começou com trauma e continua com trauma. Há uma espécie de sentimento na sociedade de que estamos sempre sob ameaça existencial. Tudo isto criou uma espécie de nuvem. Isso significa que esta é uma coisa para a qual não estamos a olhar, não estamos a falar. É proibida.
Israel é um Estado com armas nucleares. O segredo, a ambiguidade, só existe internamente em Israel. Os EUA e alguns dos estados da NATO, que mantêm este tipo de segredo, preferem não falar sobre ele. São exatamente aqueles que ajudaram na instalação nuclear em Israel. E fizeram-no apesar de serem parte do TNP (tratado de não proliferação de armas nucleares, na sigla em inglês). Alguns deles fizeram-no antes de o TNP, ter sido assinado. Por isso, de certa forma, não infringiram lei. E se olharmos para a forma como os estados consideram Israel, tratam-no Israel como um Estado com armas nucleares. Os estados árabes e o Irão continuam a falar do programa nuclear de Israel. Portanto, não é um segredo. Toda a gente está a falar sobre isso.
Não sei se é uma questão de legitimidade. Não é correto falar sem factos, mentir, ser um pouco infantil na forma como falamos sobre o assunto. E, definitivamente, não há legitimidade para atacar o Irão por causa do seu programa nuclear. E, em segundo lugar, o programa nuclear iraniano está disperso de tal forma que não é possível eliminá-lo num ataque militar. Quando começámos a guerra, começámo-la apesar de ser óbvio para toda a gente, exceto para Trump, que tudo o que o Irão já acordou nas negociações é melhor do que o que ele pode conseguir através de um ataque militar. Assim, o ataque militar nunca teve como objetivo conseguir um acordo melhor. Não é assim que funciona.
Penso que a verdadeira ameaça que o Irão representa para Israel é por procuração. O próprio Irão disse que está a construir um anel de fogo à volta de Israel. Mas este anel de fogo é convencional.
Falo do Hezbollah, dos Houthis no Iémen e do reforço do Hamas em Gaza. Eles [os iranianos] têm as suas milícias no Iraque. No entanto, não se trata de uma ameaça existencial. É uma ameaça convencional. Quando olhamos para os estados vizinhos de Israel e para as ameaças que neles existem, não são os Estados. são atores não estatais como o Hezbollah. Não é o Líbano que está a ameaçar Israel, é o Hezbollah. E o Hezbollah é também um problema, em parte, para o próprio Líbano.
Há, mais ou menos, uma avaliação e há grupos de reflexão que têm peritos para chegar a um número. E os números dizem-nos que existem cerca de 14 mil bombas, bombas nucleares no mundo. É muito. É demasiado. Só quero lembrar que se 500 bombas forem usadas, é o fim da vida no planeta como o conhecemos. Se forem utilizados 100, será um inverno nuclear que durará 10 anos. Estamos a falar de milhares de milhões que morrerão de fome.
Penso que o que Israel e os Estados Unidos precisam é de algo completamente diferente. O que [Benjamim] Netanyahu precisa é de uma vitória ou de uma guerra que lhe permita continuar a ser o primeiro-ministro de Israel. O que [Donald] Trump precisa é para os psicólogos avaliarem, não para mim.
A única forma de lidar com o programa nuclear do Irão é através da diplomacia. E funcionou. E foram Netanyahu e Trump, na primeira presidência de Trump, que mataram um acordo de trabalho e atacam agora no meio de negociações para um novo acordo. O Irão tem um programa nuclear há décadas. E há décadas que se vê aqui e ali que o Irão está muito perto de ter uma bomba. O que se passa é que se um Estado está tão perto de uma bomba, sem a conseguir, convém lembrar que esta é uma tecnologia antiga, de 1945. Se o Irão quisesse construir uma bomba, poderia tê-la nos anos 90. Portanto, se o Irão tem todos os componentes para uma bomba, mas não a tem, o que é que isso significa?
Isto significa que o Irão está exatamente onde queria estar antes da última guerra, ou seja, num estado limite. E não é o único. Há vários outros estados que, se o desejarem, estão a semanas, meses ou até a um ano de conseguir uma bomba. E ninguém os está a atacar ou a impor-lhes sanções.
Acho que sim. Sim. Para mim, por exemplo, é muito difícil encontrar emprego. Costumo dizer que me tornei radioativa. Falar sobre este tabu fez com que o meu meio, a esquerda em Israel, se afastasse, tipo, “não queremos mesmo tocar neste assunto”. Agora, devido à guerra com o Irão, as coisas estão a mudar. As pessoas compreendem que é bizarro que não saibam nada sobre o assunto, que saibam que não podem confiar em Netanyahu. Como alguém que cresceu não muito longe do reator de Dimona [o principal de Israel, no deserto do Negev], não posso simplesmente colocar esta questão de lado. As armas nucleares são o fim da humanidade. Não há fronteiras. Não importa se sou um israelita a falar sobre o assunto ou se estou em Portugal. Portugal não tem armas nucleares. Mas se houver uma guerra nuclear, toda a gente em Portugal vai sofrer. Toda a gente. Não haverá ricos nem pobres.
O reator de Dimona é o mais antigo do mundo ainda está em funcionamento, onde não há controlos de radioatividade nas instalações. É proibido. Apenas as pessoas da Comissão de Energia Nuclear de Israel estão autorizadas a inspecionar o reator. Nem os ministérios da Saúde ou do Ambiente estão autorizados a fazer inspeções. Apenas Dimona pode controlar Dimona. E isso mostra a pouca consideração que se tem pelo povo de Israel.
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