António Costa Pinto considera que a catástrofe não terá beneficiado nenhum dos candidatos.
O mau tempo, a destruição causada pela tempestade Kristin e as sondagens, que dão uma grande diferença entre os candidatos presidenciais à segunda volta, poderão desmobilizar os eleitores e fazer aumentar a abstenção, defendem politólogos ouvidos pela Lusa.
A tempestade Kristin, que a 27 de janeiro atingiu Portugal continental deixando um rasto de destruição na região Centro, ofuscou e remeteu para segundo plano a campanha eleitoral, levando os candidatos presidenciais -- António José Seguro e André Ventura -- a alterar as suas agendas.
Desde então, os candidatos mais votados na primeira volta das presidenciais de 18 janeiro visitaram locais afetados, participaram em recolhas de donativos e doaram materiais, nomeadamente lonas que seriam para cartazes, deixando para trás as habituais arruadas ou visitas a feiras e mercados.
Segundo o politólogo António Costa Pinto, os candidatos reagiram com estilos próprios a esta situação, com Seguro a mostrar "como será o futuro Presidente da República" e Ventura com "o modelo clássico da direita radical populista" com as "já previsíveis" críticas aos ministros e às instituições.
Contudo, esta catástrofe não terá beneficiado nenhum dos candidatos, considerou.
O maior adversário dos candidatos presidenciais, em parte devido aos efeitos da tempestade, poderá ser a abstenção, opinou.
A juntar a isto está a mobilização do eleitorado do centro-direita, que não tem candidato da sua ideologia política nesta segunda volta, e a "vitória quase garantida" de Seguro, apoiado pelo PS, assinalou o investigador e professor de Ciência Política.
Também a investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Susana Salgado, antecipou uma abstenção elevada, desde logo, pelas previsões de mau tempo e pelas sondagens a mostrarem que a eleição "não vai ser renhida" e já estará, à partida, decidida, acabando por desmobilizar a ida às urnas.
"A abstenção poderá influenciar os resultados e poderá trazer maior ou menor legitimidade ao próximo Presidente da República", frisou.
Um Presidente da República que saia destas eleições com "menor legitimidade" poderá não ser uma figura política de grande relevo quer para os outros atores políticos, quer para a população, salientou a especialista em comunicação política.
E, a este propósito, a politóloga Marina Costa Lobo ressalvou que a legitimidade de um Presidente da República eleito a duas voltas nunca estará em causa.
"Será sempre visto como alguém que, num contexto de imprevisibilidade e competição, chegou à segunda volta e, depois, venceu a confiança dos portugueses", destacou.
Temendo, igualmente, os valores da abstenção, a diretora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa sublinhou, contudo, que a "dramatização da eleição" até domingo até poderá favorecer a participação.
Cada um dos dois candidatos luta contra a tentação da abstenção daqueles que votaram em outros candidatos na primeira volta e que poderão estar um pouco mais desmotivados, apontou.
Os cidadãos elegem o próximo Presidente da República numa segunda volta depois de António José Seguro ter obtido na primeira volta 31,11% (1.755.563 votos) e André Ventura 23,52% (1.327.021 votos).
A votação decorre em 8 de fevereiro, tendo o voto antecipado decorrido no domingo.
O vencedor do segundo sufrágio vai suceder a Marcelo Rebelo de Sousa, eleito em 2016 e que termina o segundo mandato em março.
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