Candidato, que defende políticas anti-imigração, foi interpelado na campanha sobre a indispensabilidade dos trabalhadores estrangeiros em vários setores.
Numa exploração agrícola afetada pelo mau tempo em Torres Vedras, André Ventura ouviu um elogio a um ministro de Sócrates e o recado de um empresário que disse que sem trabalhadores estrangeiros o seu negócio acabava.
Depois de falar dos prejuízos sentidos pela passagem da depressão Kristin -- cerca de 11 hectares de estufas afetadas e danos no valor de quase meio milhão de euros -, o responsável da empresa Horto Maria aproveitou a oportunidade de ter à sua frente o candidato presidencial e líder do Chega para lhe explicar a indispensabilidade dos trabalhadores estrangeiros no setor agrícola.
"Só queria salientar um pouco do tema que é muito atual, que é o tema da mão-de-obra. Nós dependemos de mão-de-obra estrangeira a 100%. Na minha empresa, temos 80 colaboradores e só temos um português que é o técnico, o engenheiro", explicou Paulo Maria, que conduziu a visita de cerca de meia hora.
Antes de continuar, o empresário foi interrompido por André Ventura que considerou que isso acontece porque "os portugueses não querem trabalhar nisto" e que há "subsídios para toda a gente", apesar de a taxa de desemprego no país estar abaixo dos 6%.
Paulo Maria decidiu insistir: "É assim na agricultura e se nós formos à restauração temos o mesmo problema, se formos à construção civil temos o mesmo problema. Nós dependemos da mão-de-obra [estrangeira]".
"Se, hoje, os trabalhadores estrangeiros se fossem embora, eu fechava a empresa imediatamente", vincou o empresário, que é também o presidente da administração da Carmo & Silvério, organização de produtores de Torres Vedras, cujas instalações o candidato também visitou.
Ouvindo a explicação, Ventura, que recorre regularmente à retórica anti-imigração, anuiu: "Pois... Não conseguiam funcionar. Mas todos os trabalhadores estão regularizados...".
"Está tudo. Todas as regras, a pagar todos os salários, tudo a que têm direito", respondeu Paulo Maria, que vincou que era importante que o Estado permita a legalização, até porque quando começou queria dar contrato a trabalhadores estrangeiros mas a legalização era dificultada e era tudo "muito obscuro".
"O que acontecia é que as pessoas trabalhavam ilegais. Neste momento, era importante que não viéssemos a ter dificuldades com futuros trabalhadores", disse.
Depois de ouvir Paulo Maria, o candidato presidencial reiterou a defesa de "um sistema de quotas", que defina os trabalhadores necessários para os diferentes setores.
Mas o produtor agrícola insistiu na sensibilização do líder do Chega: "É muito importante salientar que este setor depende de mão-de-obra estrangeira. Isso é ponto assente", disse Paulo Maria, referindo que não pode permitir que tenha concorrência de outros empresários que tenham trabalhadores ilegais e que não pagam segurança social, impostos ou subsídios de férias.
Com danos sobretudo em estruturas pela passagem da depressão, Paulo Maria afirmou que agora a luta é recuperar dos estragos o mais rápido possível para ver se ainda se conseguem salvar alguns dos hortícolas.
"Penso que em dois meses conseguimos dar a volta e recuperar tudo", disse, manifestando alguma descrença nos apoios, que normalmente chegam demasiado tarde.
Sobre isso, o produtor recordou o ministro da Agricultura de José Sócrates, António Serrano, que foi "excecional" numa grande intempérie que afetou a região em 2009.
"Pôs os técnicos do Ministério da Agricultura a analisar projetos na sede da junta de freguesia daqui, os técnicos vieram analisar projetos e, ao fim do mês, fez uma conferência de imprensa a dizer quantos projetos é que estavam aprovados e qual era o montante", disse, já no final da visita de Ventura.
Apesar de não saber se terá a mesma agilidade e vontade do atual Governo, Paulo Maria espera que a empresa volte a levantar-se, tal como o fez em 2009.
"Estamos com vontade, um pouco mais velhos e cansados, mas com vontade de voltar a recuperar", salientou.
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