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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Ucranianos dizem que "não há nada para celebrar" no Dia da Europa

“Recordamos os mortos que lutaram na II Guerra Mundial e mais nada”, diz o secretário de Estado para os Veteranos. Ucranianos recordam os que morreram nos ataques russos.

10 de maio de 2026 às 01:30

"Celebrar o quê? Não há nada para celebrar aqui”, desabafa ao CM Alexander, morador em Kiev, a propósito do Dia da Europa. Alexander puxou-nos pelo braço para vermos o memorial das famílias que morreram aqui devido a um ataque russo. Foram mais de 30, entre elas um bebé de colo. “Um dos corpos ficou numa árvore. Foi horrível”, conta. A descrição nunca é tão terrível como a realidade de quem passou por essa noite de terror. “Esta era a minha madrinha. Uma pessoa incrível”, diz uma outra moradora, com lágrimas nos olhos. Não falam inglês, mas fazem questão de nos explicar a dor que a guerra causa.

Por estes dias celebrou-se o dia em que os aliados venceram a II Grande Guerra. Putin e Zelensky trocaram ameaças, mas acabaram por acertar uma trégua de três dias. Para as pessoas, isso pouco ou nada diz. “Putin é o diabo. Hitler é uma criança pequena ao pé dele”, desabafa Serhii Uzlov, já no centro de Kiev. Fugiu das zonas ocupadas pelos russos. Perdeu tudo. “Não tenho casa. Vim para Kiev com a roupa que tenho no corpo”, afirma. Agora faz visitas aos poucos turistas que por aqui andam. Mas há. Conhecemos Miguel, um português que vive em Londres e que fez mais de dez horas de comboio para visitar Kiev. “Tenho amigos ucranianos no Reino Unido e quis vir ver a cidade. Há medo, mas dá para visitar”, explica ao lado de um dos veículos russos tomados pela Ucrânia, parcialmente destruído. É uma exposição a céu aberto. Carros blindados, tanques e até a carcaça de um drone russo estão expostos numa praça da cidade. Pode-se entrar e ver as imagens do antes e depois. Quatro anos de guerra, meio milhão de mortos ou talvez mais, não tornam a impotência das sirenes menor. Num dia tocaram duas vezes em Kiev.

Num gabinete do Governo, o secretário de Estado para os Veteranos recebe-nos e mostra-nos várias “recordações” da guerra. “Isto aqui é um pedaço de um drone russo destruído por um drone ucraniano”, descreve, enquanto aponta para uma chapa de metal fechada numa caixa de madeira com vidro à frente. É apenas um exemplo. Também há medalhas, munições e bandeiras. “Hoje não há nada para celebrar”, sublinha quando se fala do Dia da Europa. “Recordamos os mortos que lutaram na II Guerra Mundial e mais nada”, remata o governante.

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