Ex-chefe militar remete para Zelensky insucesso de contraofensiva de 2023
Zaluzhnyi relata que as tensões com a presidência surgiram logo após a invasão em larga escala da Rússia, em fevereiro de 2022.
O ex-chefe das Forças Armadas da Ucrânia, general Valerii Zaluzhnyi, remeteu para o Presidente a responsabilidade pelo insucesso da contraofensiva de 2023 contra as forças invasoras russas, assumindo episódios de tensão com Volodymyr Zelensky, até ser demitido em 2023.
Atual embaixador ucraniano no Reino Unido, Zaluzhnyi, de 52 anos, é apontado como o principal rival político de Zelensky, mas, em entrevista à agência AP, mantém o silêncio sobre a intenção de se candidatar contra o atual Presidente.
Zaluzhnyi relata que as tensões com a presidência surgiram logo após a invasão em larga escala da Rússia, em fevereiro de 2022, e que os ânimos exaltavam-se frequentemente com Zelensky em discussões sobre a defesa do país.
A relação tensa atingiu o ponto de ebulição ainda nesse ano, quando dezenas de agentes do serviço de informações interno da Ucrânia (SBU) invadiram o gabinete de Zaluzhnyi, num ato de intimidação, referiu este à AP.
O gabinete de Zelensky não se pronunciou sobre o caso e o SBU afirmou que não foi realizada qualquer busca no escritório de Zaluzhnyi, embora tenha reconhecido que a morada fazia parte de uma investigação não relacionada com o general.
Segundo Zaluzhnyi, durante a invasão do seu gabinete em 2022 ligou ao chefe de gabinete de Zelensky, avisando-o de que estava preparado para acionar as forças armadas para proteger o centro de comando: "Vou lutar consigo e já convoquei reforços para o centro de Kiev para apoio".
Embora esta quase crise no início da guerra tenha sido ultrapassada, as divergências entre Zaluzhnyi e Zelensky sobre a forma de defender o país persistiram, segundo o ex-líder militar, e em setembro do mesmo ano, após uma reunião tensa no gabinete presidencial, dezenas de agentes do SBU apareceram no escritório do chefe do Estado Maior, para revistar o local.
O general afirma ter impedido que vasculhassem documentos e computadores.
À AP, o SBU afirmou que efetuou revistas em várias moradas, no âmbito de uma investigação sobre crime organizado --- sem qualquer relação com Zaluzhnyi.
Sobre a contraofensiva em 2023, Zaluzhnyi afirma que o plano que elaborou com a ajuda dos parceiros da NATO falhou porque Zelensky e outros oficiais não se comprometeram com os recursos necessários.
O plano original era concentrar forças suficientes num "punho único" para retomar a região parcialmente ocupada de Zaporijia --- onde se encontra uma central nuclear vital --- e depois avançar para sul, em direção ao Mar de Azov.
Isto cortaria um corredor terrestre que o exército russo vinha utilizando para reabastecer a Crimeia, anexada ilegalmente em 2014. O sucesso exigia uma mobilização ampla e concentrada, bem como um elemento surpresa tática, afirmou Zaluzhnyi.
O que aconteceu, referiu à AP, foi que as forças foram dispersas por uma vasta área, diluindo o seu poder de ataque.
O relato de Zaluzhnyi sobre como a contra-ofensiva divergiu do plano original foi corroborado por dois oficiais de defesa ocidentais que falaram sob condição de anonimato.
As principais críticas de Zaluzhnyi à estratégia de guerra da Ucrânia são que esta depende de um número irrealista de tropas e não está bem organizada no desenvolvimento e implantação de novas tecnologias no campo de batalha.
O general disse que teve com Zelensky conversas "absolutamente amistosas" nas duas ocasiões em que se encontraram desde então.
Zaluzhnyi evita discutir política, por temer fomentar a divisão entre os ucranianos. "Até que a guerra termine ou a lei marcial seja suspensa, não vou discutir isso e não fiz nada nesse sentido", afirmou.
Uma sondagem da Ipsos publicada no mês passado colocava em 23% o apoio a Zaluzhnyi numa hipotética eleição futura, face a 20% de Zelensky, tornando-o o principal concorrente do Presidente.
A Rússia invadiu a Ucrânia a 24 de fevereiro de 2022, com o argumento de proteger as minorias separatistas pró-russas no leste e "desnazificar" o país vizinho, independente desde 1991 - após a desagregação da antiga União Soviética - e que tem vindo a afastar-se do espaço de influência de Moscovo e a aproximar-se da Europa e do Ocidente.
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