Mensagem do Presidente da República.
Lembro-me muito bem do arranque do Correio da Manhã, passaram já quarenta anos. Era uma aposta diferente. Na forma e no conteúdo. Vítor Direito e Carlos Barbosa corporizavam essa aposta. Um matutino tabloide, situado numa área de pensamento mais perto do centro-direita e com preocupação de busca de estilo tido como acessível a mais leitores.
Vivia-se o período de transição para o que haveria de ser a mudança política interna dos primeiros anos 80 e o tempo externo da viragem para o neoliberalismo nos EUA e na Europa. Depois, década a década, o Correio da Manhã foi atravessando as mudanças nacionais e internacionais e, sobretudo, acompanhando a vertiginosa alteração da comunicação social portuguesa.
Quando nasceu, ainda não havia televisão privada, nem rádios locais como as que viriam a multiplicar-se, nem a revolução digital.
Hoje, ao festejar um marco significativo a caminho de meio século, o panorama é radicalmente diverso. As crises acentuaram as dificuldades económico-financeiras em vários setores da nossa comunicação social. Primeiro sofreram alguns jornais locais e regionais. A maioria tem resistido, com notável coragem. Depois, ou quase em simultâneo, chegou a hora de as rádios locais, felizmente não todas mas uma parte apreciável, padecerem dos tormentos da quebra de receitas.
No plano nacional, jornais históricos lutavam por mais meios, quer no papel, quer no online. As próprias televisões têm tido de se reinventar, em clima marcado pelo não regresso da publicidade aos níveis de anos anteriores às crises.
Neste quadro valeria a pena olhar para o que variadas democracias têm imaginado para fazer face a presentes complexos e futuros provavelmente ainda mais, analisando esses exemplos de forma crítica, isto é, de modo a nunca abrir a porta a tentações de controlo do poder político na informação, ou seja, na liberdade de informar e ser informado.
Para já não falar em França, talvez a mais generosa a apoiar a imprensa mas também com maior tradição centralista, há soluções interessantes de estímulo ao jornalismo no Canadá, aos meios locais na Áustria ou no Reino Unido ou à produção de conteúdos na Nova Zelândia. E há as ideias e propostas das Associações representativas do setor em Portugal, aliás apresentadas à Assembleia da República.
Não seria importante haver entre nós, passado o período eleitoral, uma reflexão mais alargada sobre este tema, sempre partindo do princípio de que tudo menos alimentar esquemas de domínio político da liberdade, do pluralismo, do poder de escrutínio dos que governam? E não continua a ser essencial lutar pela imprensa escrita, como pelo livro, pela leitura em Portugal?
Quarenta anos passaram. A correr. Ou melhor, com a aceleração que é desafio imparável destes anos.
O Correio da Manhã, que é agora mais do que o matutino de 1979 porque lhe junta outros órgãos de imprensa e constitui um grupo também televisivo e radiofónico em expansão, vai entrar num novo ciclo de vida. Que esse ciclo se caraterize pela mesma capacidade de resistência e de afirmação do que ora termina, assim contribuindo para a superação de sinais preocupantes do clima mediático vivido - é este o voto sincero do cidadão e do Presidente da República Portuguesa.
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