Argelino preso no Porto por terrorismo
Samir Boussaha, um argelino de 35 anos, foi ontem detido no Porto pela PJ por suspeita de terrorismo, no âmbito de uma operação com origem em Itália e que se estendeu ao Reino Unido, França e Portugal, num total de 16 detidos. Recrutaria muçulmanos para campos de treino no Afeganistão e no Iraque e faria parte de uma rede terrorista com sede em Itália.
O indivíduo residia num apartamento na rua Alexandre Herculano, em pleno centro do Porto. Na vizinhança era definido como pacato e geralmente associado ao Renault 19 Chamade, em condições deploráveis, que estacionado há bastante tempo no mesmo lugar: em frente ao prédio onde morava.
Era bastante raro Samir, definido pelas autoridades italianas como radical islâmico, andar sozinho no Porto. Segundo um vizinho, que pediu o anonimato, o argelino “costumava chegar acompanhado por mais dois ou três amigos e juntavam-se no apartamento. Mas tinham um comportamento perfeitamente normal”, revela, confirmando ainda que a principal marca de Samir era mesmo o veículo, registado no próprio nome, mas sem inspecção desde Fevereiro de 2007 e com sinais de evidente abandono.
A normalidade e pacatez repetida vezes sem conta pelos vários vizinhos ouvidos pelo CM tinham reflexo no quotidiano de Samir Boussaha. Há cerca de três anos em solo nacional, era dono de uma barbearia há 14 meses – que decorou com artigos do FC Porto – onde trabalhava com outro funcionário, também estrangeiro. O estabelecimento fica localizado na rua de Cimo da Vila, nas traseiras do Comando da PSP, e foi nesta rua, com várias lojas de imigrantes, que o CM tentou falar com o empregado de Samir. O mal-estar evidente entre os vários lojistas foi confirmado já na barbearia, onde os jornalistas acabaram por ser mal recebidos.
Para além da loja que lhe dava o sustento, Samir Boussaha tinha também uma família com quem vivia. A companheira, de cerca de 30 anos e também estrangeira, e uma filha, com quase três anos, nascida em Portugal.
“Saía algumas vezes para passear com a pequenina, como qualquer outro. Mas não era de muitas falas, não tinha o hábito de conversar com o pessoal”, revela outro vizinho, que diz que apesar do “aspecto muçulmano” nunca notou “qualquer indício que levasse a isto”.
O “isto” é a detenção de Samir, suspeito de envolvimento numa rede terrorista com sede em Itália. Apesar da gravidade das acusações, a primeira testemunha ouvida pelo CM revela bastante pragmatismo. “A mim nada me surpreende. Ainda há alguns meses noticiaram que vários terroristas tinham entrado em Portugal, portanto tudo é possível.” concluiu.
ESPECIALISTAS PEDEM MAIS MEIOS DE COMBATE
Bacelar Gouveia, presidente do conselho de fiscalização do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP), afirmou ontem, no colóquio ‘Terrorismo Global e os seus Desafios’, que Portugal tem falta de respostas para combater o terrorismo, enumerando um leque de medidas que devem ser adoptadas para melhorar essa luta. Opinião diferente tem Conde Rodrigues, secretário de Estado Adjunto da Justiça, que considera que Portugal tem “um quadro jurídico preparado para responder a crimes terroristas”. Bacelar Gouveia falou na importância de os serviços de informação poderem realizar escutas, que estariam sujeitas a uma série de condições. Neste âmbito referiu que as escutas telefónicas só podem ser realizadas após uma autorização superior, sendo, obrigatoriamente, alvo de um controlo político a nível parlamentar. O especialista em Direito Constitucional referiu ainda que o cúmulo jurídico deve ser aumentado para situações de crime terrorista, tal como as penas devem ser agravadas. Também a obrigatoriedade de as operadoras guardarem os registos de tráfego de dados mereceu um apontamento. Conde Rodrigues, por sua vez, referiu, a propósito, que a revisão do Código de Processo Penal já prevê esta situação, dando ênfase ao documento que irá tipificar várias situações relacionadas com o branqueamento de capitais e o financiamento do crime terrorista.
NÃO REAGIU À DETENÇÃO
Samir Boussaha foi detido pelas 09h00 de ontem quando saía de casa. A operação foi montada com toda a discrição e a prisão foi efectuada por elementos da Direcção Central de Combate ao Bandistismo e investigadores da PJ do Porto. O mandado internacional só tinha entrado no sistema horas antes, mas há muito que as autoridades vigiavam o suspeito. Sabiam os seus passos, conheciam todas as suas rotinas, tinham referenciados todos os seus contactos. Quando foi interceptado, Samir nem teve tempo de reagir. Foi imediatamente detido e durante a tarde foi ouvido no Tribunal da Relação do Porto por um juiz desembargador. O magistrado confirmou a prisão preventiva e Samir Boussaha vai ser extraditado para Itália – onde decorre o inquérito – nos próximos dias. As novas regras da extradição fazem com que o processo decorra de forma muito rápida, para que o suspeito seja julgado em Itália. Em Portugal, o juiz nem sequer apreciou os indícios contra o argelino, por o processo correr noutro país da Europa. Apenas foi analisada a validade do mandado e se os crimes que lhe são imputados justificam a prisão preventiva. O que não levantou dúvidas ao juiz, já que o argelino está indiciado por terrorismo, auxílio à imigração ilegal e contrabando.
CABO-VERDIANOS
Três dos quatro cabo-verdianos envolvidos em múltiplos homicídios na Holanda foram no ano passado detidos em Portugal pela Direcção Central de Combate ao Banditismo da PJ. Acabaram condenados a prisão perpétua na Holanda, sendo que um pertenceria à rede Hofstad, célula terrorista ligada à al-Qaeda e sediada em Haia, capital política da Holanda.
INDIANO
A 21 de Julho de 2005, e depois de anos de discussão nos tribunais, o Constitucional determinou a extradição do cidadão indiano Abu Salem para a Índia, condenado em Portugal por uso de documentos falsos, confirmando assim uma decisão já tomada pelo Supremo Tribunal de Justiça. As autoridades indianas pediram a extradição de Abu Salem por suspeita de actos terroristas, mas o indiano tentou evitar a mesma com receio de ser condenado à pena de morte. Portugal só procedeu à extradição quando se confirmou
ARGELINO
A 5 de Fevereiro do ano passado o argelino Sofiane Laib, suspeito de ligações a terroristas, foi expulso do nosso país por elementos do Serviço de Estrangeiros de Fronteiras. Faltavam dois dias para terminar pena de três anos e meio de prisão por falsificação de documentos. Tinha sido preso em Portugal em Fevereiro de 2003 e acabou por ser extraditado para Madrid.
- 20 é o número de mandados de detenção emitidos pela Justiça italiana. Até ontem tinham sido cumpridos 16: 11 em Itália, três no Reino Unido, um em França e outro em Portugal.
- 2003 foi o ano em que as autoridades italianas começaram a investigar esta rede terrorista. A investigação foi aberta após o desmantelamento de outra célula.
SÍRIA
Os terroristas recrutados por esta rede eram enviados para o Afeganistão e para o Iraque através da Síria.
MANUAL PARA BOMBAS
Nas buscas realizadas em Itália foram apreendidos manuais de terrorismo e guerrilha urbana da al-Qaeda, bem como instruções para o fabrico de bombas e documentos falsos.
PENALIZAR O TERROR
Dar instruções sobre como fabricar uma bomba, fazer apologia do terrorismo ou incitar à violência poderá ser crime na UE
AMEAÇAS DE MORTE
Alan Craig, da Aliança dos Povos Cristãos, opôs-se à construção de uma mesquita em Londres e recebeu ameaças de morte no YouTube
ESPANHA INVESTIGA IMÃ
A polícia espanhola investiga se o imã de Canãda Real está a ensinar a menores como fabricar cocktails molotov
CAÇADO LÍDER EXTREMISTA
Tropas iraquianas capturaram um importante líder da organização radical Estado Islâmico do Iraque, ligada à al-Qaeda
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