Cerca de 2000 pessoas gritaram em Lisboa "Eu Sou Charlie"
Na praça dos Restauradores milhares de pessoas prestaram homenagem às vítimas do ataque em Paris.
Cerca de 2000 pessoas manifestaram-se esta quinta-feira na praça dos Restauradores, em Lisboa, pela liberdade de expressão e de imprensa, um dia depois do atentado à redação do jornal satírico Charlie Hebdo, em Paris, que fez 12 mortos.
Após longos minutos de silêncio, com a multidão empunhando cartazes em que se lia, em francês, "Eu sou Charlie" - numa homenagem aos cartoonistas do semanário assassinados a tiro por três extremistas islâmicos que irromperam pela redação e abriram fogo -, ouviu-se uma salva de palmas. Aos pés da estátua, havia velas acesas e aí se iniciaram as palavras de ordem que pouco depois todos repetiam, muitas em francês, outras em português, em defesa do mesmo: pela liberdade, contra o medo, "Eu sou Charlie", "Todos Somos Charlie".
À Lusa, a jornalista freelancer francesa Marie-Line Darcy, que organizou o protesto em conjunto com outros jornalistas, destacou a importância de se declarar "Eu sou Charlie".
"Porque esse ato de barbárie nos atinge a todos: é tentar calar as pessoas, calar os jornais, calar a liberdade de expressão. Não é um jornal consensual, há pessoas que não gostam, mas estão aqui hoje, porque se trata de um ato simbólico, é o princípio da democracia, o princípio da liberdade", defendeu. O escritor Rui Zink declarou estar presente "por autodefesa, contra todos os filhos da puta que estão do lado da morte, contra a vida".
"Por mais violento que seja o humor, quando o humorista dispara, dispara palavras ou desenhos - e às vezes atinge o alvo e dá tiros certeiros, mas é tudo metáfora. E o Charlie Hebdo não era contra religião nenhuma: eles disparavam em todas as direções - até na direção dos ateus", sustentou.
Ricardo Araújo Pereira elogia cartoonistas
O humorista Ricardo Araújo Pereira elogiou a coragem dos cartoonistas que pagaram com a vida o direito de fazerem o seu trabalho. "Acho admirável que aquelas pessoas tenham morrido em nome de uma coisa que me é cara, que é a vontade de fazer rir os outros. Eles morreram por uma piada, na verdade foi isso que aconteceu. Eu devo dizer que o meu caso é muitíssimo longínquo do deles: se as consequências do meu trabalho fossem aquelas, eu mudava de atividade profissional imediatamente", comentou.
"Aqueles homens sabiam que aquela podia ser uma consequência do trabalho deles e, mesmo assim, continuaram a fazê-lo. Eu não teria a mesma coragem, não sou um herói", observou, acrescentando que gostaria "que o Charlie Hebdo saísse esta semana em França, como saiu na semana passada", porque não lhe "passa pela cabeça que eles, os criminosos, tenham ganho". "Eles não ganharam", sublinhou.
Em resposta a quem considera que aqueles profissionais não faziam jornalismo, só faziam uns bonecos, o jornalista Ricardo J. Rodrigues foi contundente: "A sátira é o exercício maior da liberdade de expressão - e, dentro da liberdade de expressão, cabe obviamente a liberdade de imprensa. Ao jornalismo cabe relatar os factos, à sátira cabe fazer-nos pensar neles, e era isso que o Charlie Hebdo fazia".
"É pena que não tenhamos mais exemplos desses, nomeadamente em Portugal", comentou, vincando que "tudo o que é um exercício de liberdade de expressão não é negociável e que, neste caso, era o extremo desse exercício". Também o escritor e ilustrador Pedro Vieira, cujos 'cartoons' se poderiam bem enquadrar numa publicação como o Charlie Hebdo, disse à Lusa que, no seu entender, "não há limites nem para a liberdade de imprensa, nem para o humor".
"Os limites que alguém que se considera ofendido encontre na liberdade de imprensa e no humor podem ser debatidos em instituições que existem nas sociedades liberais e democráticas, há a justiça para isso, e não a lei do terror para impor limites às pessoas. "Felizmente, essa lógica depreciativa em relação ao trabalho que se fazia no Charlie Hebdo não é muito generalizada, e, a mim, preocupa-me pouco. Eles até podiam nem ser jornalistas de todo: podiam ser uma associação cultural, um grupo de amigos que gostava de se meter com a política e a religião", exemplificou.
Neste caso, contudo, considerou ser "profundamente injusto" que haja quem pense que o trabalho deles não era jornalístico, "porque o humor é uma das formas salutares de informação e, muitas vezes, consegue refletir melhor aquilo que se passa à nossa volta do que o jornalismo dito sério".
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