Comportamento homossexual nos primatas é ancestral e está relacionado com múltiplos fatores

Sexo entre indivíduos do mesmo sexo foram documentados em mais de 1500 espécies animais.

13 de janeiro de 2026 às 10:57
Macacos Foto: Direitos Reservados
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Um estudo de grande escala publicado na segunda-feira examina o comportamento homossexual em primatas não humanos, mostrando que tem raízes evolutivas antigas e depende de múltiplos fatores relacionados com o ambiente e a estrutura social.

"A diversidade de comportamentos sexuais é muito comum na natureza, entre espécies e nas sociedades animais, tão importante como cuidar da descendência, lutar contra um predador ou procurar alimento", sublinhou à agência France-Presse (AFP) Vincent Savolainen, autor principal do estudo publicado na Nature Ecology & Evolution.

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Comportamentos sexuais entre indivíduos do mesmo sexo foram documentados em mais de 1.500 espécies animais.

Mas, durante muito tempo, foram observados apenas de forma anedótica pelos investigadores que os viam como um "paradoxo darwiniano", dado que a evolução se baseia na transmissão de genes através da reprodução, observou o biólogo.

Estudos recentes demonstraram que esta característica tem uma componente hereditária e pode proporcionar uma vantagem evolutiva.

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Nos macacos rhesus de Porto Rico, que Savolainen estuda há oito anos, os machos que acasalam entre si podem formar coligações, o que lhes pode permitir o acesso a mais fêmeas e, portanto, a mais descendentes.

No entanto, as análises comparativas que poderão revelar os fatores não genéticos que influenciam a expressão desta característica são ainda limitadas.

Savolainen e os seus colegas vasculharam a literatura científica para reunir dados existentes sobre 491 espécies de primatas não humanos.

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Identificaram tais comportamentos em 59 delas, incluindo lémures, macacos das Américas, África e Ásia, e grandes símios.

Isto sugere uma "raiz evolutiva profunda" para esta característica, observaram os investigadores, que analisaram então a influência do contexto ambiental, da "história de vida" (esperança de vida ou morfologia, entre outros) e da organização social na sua expressão.

O dimorfismo sexual é, por isso, mais frequente em espécies que vivem em ambientes hostis com recursos alimentares limitados, como os macacos-de-gibraltar.

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É também mais comum em espécies expostas a um elevado risco de predação, como os macacos-vervet (pequenos macacos africanos).

Isto sugere que estes comportamentos podem ajudar a gerir as tensões dentro do grupo durante períodos de stress.

O dimorfismo sexual é também mais comum em macacos onde os machos e as fêmeas apresentam diferenças de tamanho acentuadas, como os gorilas-das-montanhas.

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O dimorfismo sexual está frequentemente associado a grupos sociais maiores, competição intensa e hierarquias mais rígidas, enquanto as espécies onde os machos e as fêmeas têm tamanhos semelhantes vivem geralmente em pares ou pequenos grupos familiares.

Estes diferentes fatores interagem entre si: as características do ciclo de vida são moldadas por fatores ambientais, que, por sua vez, influenciam a complexidade social, levando à prevalência de estratégias de coesão social.

Estes resultados sugerem que estes comportamentos são uma "estratégia social flexível, utilizada para fortalecer laços sociais, gerir conflitos ou construir alianças em resposta a pressões ecológicas e sociais", frisaram os autores.

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Os investigadores colocaram também a hipótese de que fatores semelhantes podem ter desempenhado um papel nos hominídeos ancestrais e até mesmo nos humanos modernos.

"Os nossos antepassados tiveram certamente de enfrentar as mesmas complexidades ambientais e sociais", apontou Savolainen.

"Mas há aspetos completamente exclusivos dos seres humanos, com uma complexidade de orientação e preferência sexual, que não abordamos de todo", explicou o biólogo evolucionista.

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