Do envolvimento das filhas à reação de Sánchez: o que se sabe sobre a investigação ao antigo primeiro-ministro de Espanha

Zapatero está a ser investigado por lavagem de dinheiro e tráfico de influências. Está em causa uma ajuda pública de 53 milhões de euros concedida à companhia aérea Plus Ultra.

20 de maio de 2026 às 13:01
Antigo primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero Foto: Markus Schreiber/AP
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O antigo primeiro-ministro espanhol José Luis Rodríguez Zapatero está a ser por suspeitas de tráfico de influências, lavagem de dinheiro e participação numa alegada organização criminosa ligada ao resgate público da companhia aérea Plus Ultra. É a primeira vez na história democrática de Espanha que um antigo ou atual primeiro-ministro é formalmente constituído arguido.

Segundo a informação reunida no processo, a investigação centra-se na aprovação de uma ajuda pública de 53 milhões de euros concedida à Plus Ultra em março de 2021, no âmbito do fundo de apoio criado pelo Governo espanhol após a pandemia de covid-19. O juiz José Luis Calama, da Audiência Nacional espanhola, suspeita que uma rede de influência terá atuado para garantir a aprovação e desembolso dessa ajuda estatal.

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De acordo com os documentos citados no processo, Zapatero é apontado como alegado líder de uma "estrutura estável e hierarquizada de tráfico de influências", que operaria através de um "núcleo pessoal" dedicado à obtenção de benefícios económicos mediante contactos junto de entidades públicas. A investigação refere ainda que a rede teria ramificações em Espanha, Venezuela e Emirados Árabes Unidos, segundo o jornal espanhol El País.

O juiz sustenta que a alegada influência exercida tinha um objetivo concreto: assegurar a aprovação da ajuda pública à Plus Ultra. A decisão judicial menciona contactos, reuniões e acesso antecipado a informação privilegiada sobre a iminente concessão do apoio financeiro.

Envolvidos na "boutique financeira"

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O juiz descreve três níveis operacionais do que, seguindo a gíria dos próprios envolvidos, classifica como uma "boutique financeira". No topo estaria Rodríguez Zapatero e, imediatamente abaixo, dois empresários: Julio Martínez, amigo pessoal do ex-governante, e Manuel Aaron Fajardo, descritos como "pessoas de confiança e interlocutores diretos com os clientes". Num terceiro nível estariam a secretária do antigo primeiro-ministro, María Gertrudis Alcázar, e o braço-direito de Martínez, Cristóbal Cano, encarregados da gestão diária da alegada rede.

Julio Martínez, é referido como amigo pessoal de Zapatero e proprietário de empresas consideradas centrais na alegada estrutura. Segundo o processo, uma dessas sociedades, Análisis Relevante, terá canalizado pagamentos relacionados com a Plus Ultra e transferido mais de 700 mil euros para Zapatero e para as suas filhas. 

Os investigadores afirmam ainda que uma empresa sediada no Dubai, criada alegadamente por instruções de Zapatero, estaria ligada ao circuito financeiro da operação. O processo refere um contrato que atribuía à empresa Idella Consulenza uma comissão correspondente a 1% do valor do resgate da companhia aérea.

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Outro nome citado é o de Manuel Aaron Fajardo, descrito como "o homem de Zapatero na Venezuela". Mensagens intercetadas pelos investigadores apontam para contactos entre dirigentes da Plus Ultra e elementos próximos do antigo chefe do Governo espanhol durante o período em que decorria o processo de resgate financeiro.

Filhas de Zapatero recebem milhares por trabalho sem "valor técnico"

A investigação abrange igualmente a empresa Whathefav, pertencente às filhas de Zapatero, Alba e Laura Rodríguez Espinosa. O juiz considera que a sociedade funcionaria como uma "empresa instrumental" destinada à redistribuição de fundos provenientes da alegada rede. Segundo o processo, a empresa terá recebido centenas de milhares de euros através de contratos relacionados com serviços de marketing e comunicação.

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Os relatórios policiais sustentam que muitos dos trabalhos atribuídos à Whathefav consistiam apenas na formatação de documentos produzidos por outras entidades, sem "valor técnico próprio", levantando suspeitas sobre a justificação dos pagamentos efetuados. No total, a empresa das filhas de Zapatero terá recebido mais de um milhão de euros entre 2020 e 2024, segundo a investigação. 

Sede de partido é "centro de coordenação da rede"

As autoridades espanholas realizaram terça-feira buscas no escritório utilizado por Zapatero em Madrid, localizado na sede do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol), partido de que foi secretário-geral. O juiz José Luis Calama considera o espaço como o "centro de coordenação da rede", onde alegadamente "são dadas instruções", "elaborados documentos", “são geridas comunicações sensíveis" e "é articulada a operação financeira e societária", de acordo com o El Mundo.

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A direção do PSOE assinala que, de acordo com os estatutos do partido, Zapatero não tem de ser suspenso automaticamente da militância. Isso só seria obrigatório caso fosse aberta a fase de julgamento oral no processo em que está arguido por alegado tráfico de influências.

Sánchez dá "apoio total" a Zapatero

O presidente espanhol assegurou esta quarta-feira que irá prestar "toda a colaboração com a justiça", que terá "todo o respeito pela presunção de inocência" e ainda que dará "apoio total a Zapatero".

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Pedro Sánchez acrescentou ainda, numa clara estratégia de contra-ataque político, em defesa de Zapatero que o antigo primeiro-ministro não colocou Espanha "numa guerra ilegal, não mentiu aos espanhóis perante um atentado terrorista e acabou com a ETA [organização terrorista e separatista basca]". E rematou: "Não aceitamos lições de quem tem tanto para esconder e tantas vergonhas para ocultar".

Zapatero deverá prestar depoimento no próximo dia 2 de junho. Até ao momento, não existe acusação formal nem julgamento marcado. O antigo primeiro-ministro beneficia da presunção de inocência.

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