Europa diversificou energia após Ucrânia mas continua exposta a choques, consideram especialistas

Crise energética desencadeada pela invasão da Ucrânia, em 2022, levou a União Europeia a reduzir a dependência do gás russo.

14 de março de 2026 às 10:24
Gás natural Foto: iStockphoto
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A Europa reduziu a dependência energética da Rússia após a invasão da Ucrânia, diversificando fornecedores de gás, mas continua vulnerável a choques nos preços e a tensões geopolíticas que afetem o abastecimento, consideram especialistas.

A crise energética desencadeada pela invasão da Ucrânia, em 2022, levou a União Europeia a reduzir a dependência do gás russo, reforçando importações de gás natural liquefeito (GNL --- gás arrefecido a temperaturas muito baixas para ser transportado por navio) e diversificando fornecedores.

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A analista de energia e clima do Bruegel --- um 'think tank', ou centro independente de investigação e análise de políticas públicas --- Ugne Keliauskaite afirma que a principal lição foi que "a segurança energética não pode assentar num único fornecedor externo dominante, sobretudo quando o fornecimento está associado a riscos geopolíticos".

Segundo a especialista, em 2021 a Rússia fornecia mais de 43% do gás da União Europeia, enquanto atualmente o GNL proveniente dos Estados Unidos representa cerca de um quarto do abastecimento europeu, tornando-se o segundo maior fornecedor depois da Noruega.

Ainda assim, Ugne Keliauskaite considera que o novo modelo tem vantagens e riscos: a Europa "tornou-se mais resiliente", porque as importações marítimas permitem mudar de fornecedor mais facilmente, mas também ficou "mais exposta à volatilidade do mercado global".

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Numa crise energética, acrescenta, o problema tenderá a ser não tanto um corte físico no abastecimento, mas "preços mais elevados e uma concorrência mais forte pelos carregamentos".

João Borges de Assunção, professor na Universidade Católica Portuguesa, defende igualmente que a crise mostrou que a "dependência energética não é apenas um problema de preço, é também um risco operacional".

Segundo o economista, a estratégia europeia permitiu reduzir a exposição a um único fornecedor, mas trouxe novas vulnerabilidades, tendo "transferido parte do risco para a volatilidade do mercado global, em particular no GNL, onde competimos com a Ásia".

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"Não há forma de eliminar o risco geopolítico global. A mitigação dos efeitos de todos os riscos sistémicos por parte dos estados tem um custo incomportável", apontou.

O responsável acrescenta que a Europa ficou mais dependente do mercado internacional de gás natural liquefeito, onde os preços são muitas vezes definidos no chamado mercado 'spot' --- mercado de curto prazo em que a energia é comprada e vendida ao preço do momento.

Já Ricardo Cabral, professor no ISEG - Instituto Superior de Economia e Gestão, tem uma visão mais crítica da resposta europeia à crise.

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O economista considera que "não falaria em lição" da crise após a guerra na Ucrânia, defendendo que as sanções ao petróleo e gás russos e a sua substituição por GNL "foram decisões mal fundamentadas que custaram caro à indústria e às famílias europeias e portuguesas por via do surto de inflação e do aumento das taxas de juro em 2022 e 2023".

"Iremos enfrentar custos muito maiores das sanções contra a Rússia nas próximas semanas e meses, se a guerra dos EUA e Israel contra o Irão continuar. Irão ocorrer ruturas de fornecimento de combustíveis na UE e também em Portugal", alerta.

Quanto à estratégia de diversificação de fornecedores de energia, entende que foi "apenas o termo utilizado pelas autoridades da União Europeia para vender uma narrativa ao público em geral".

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"Como foi e é apenas propaganda, desmorona-se qual castelo de cartas perante o confronto com a realidade dos factos no terreno. Se tivesse sido uma estratégia de diversificação de risco de fornecedores não estaríamos em risco de rutura de fornecimento de combustíveis na UE nos próximos meses", sustentou.

Ricardo Cabral avisa ainda que a Europa continua vulnerável a novas perturbações no mercado energético, sobretudo se conflitos no Médio Oriente afetarem o abastecimento global.

Neste contexto, defende que Portugal deve proteger ativos estratégicos do setor energético, alertando para o risco de perda de controlo nacional sobre empresas-chave.

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"Portugal deveria paulatinamente acautelar os seus interesses (...) e não deveria deixar vender a Galp à Moeve, que é um grupo controlado em 61% pelos Emirados Árabes Unidos e pela BlackRock [EUA] ", afirmou, acrescentando que o país deveria também avaliar se o Grupo Amorim "tem condições para se manter à frente dos destinos da Galp, empresa que lhe foi vendida em condições muito vantajosas pelo Estado português, sob a condição de permanecer sob controlo português".

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