Grávidas, baixas médicas e cliques no rato: Meta acusada de usar IA para decidir milhares de despedimentos
Meta terá recorrido a inteligência artificial para analisar o desempenho dos trabalhadores. Estão em causa cerca de oito mil postos de trabalho.
Um grupo de trabalhadores da Meta avançou com uma ação judicial nos Estados Unidos, em que acusa a empresa de recorrer a inteligência artificial (IA) para escolher que funcionários despedir durante a mais recente vaga de cortes no pessoal. Entre os visados estão trabalhadores em licença de maternidade, baixa médica ou com adaptações laborais por motivo de deficiência.
A Meta terá recorrido a inteligência artificial para analisar o desempenho dos trabalhadores e elaborar listas de despedimentos, de acordo com a queixa, segundo o jornal The Guardian. Os autores da queixa alegam que os sistemas cruzavam classificações de desempenho, dados de produtividade e até informações recolhidas através da monitorização da atividade dos funcionários, incluindo utilização do teclado, do rato e de dispositivos da empresa.
O processo deu entrada na segunda-feira no Tribunal Federal do Distrito Norte da Califórnia e está relacionado com a redução de cerca de oito mil postos de trabalho anunciada pela Meta no início deste ano. A empresa, que detém o Facebook, Instagram e WhatsApp, rejeita as acusações e garante que todas as decisões foram tomadas por pessoas e não por sistemas automatizados.
Os trabalhadores defendem que este modelo penalizou quem estava ausente por motivos legalmente protegidos, uma vez que, durante períodos de licença de maternidade ou baixa médica, deixam de existir métricas de produtividade comparáveis às dos restantes colegas. No caso de trabalhadores com deficiência, acrescentam, os indicadores de desempenho poderiam igualmente surgir reduzidos.
"Os funcionários que exerceram o seu direito a licenças protegidas foram desproporcionalmente escolhidos para despedimento", refere a ação judicial, que acusa a empresa de transformar essas ausências num fator negativo na avaliação automatizada pela IA.
Entre os casos apresentados está o de uma cientista que se encontrava em licença de pré-parto autorizada e recebeu a notificação de despedimento apenas dois dias antes de dar à luz. Outro trabalhador, engenheiro, afirma ter visto a sua classificação de desempenho baixar devido ao tempo de ausência provocado por uma lesão. Um terceiro, gestor em baixa médica, diz ter sido dispensado apenas 16 dias depois de iniciar a licença.
Os advogados dos trabalhadores pedem ao tribunal que suspenda a concretização dos despedimentos enquanto o processo decorre e reclamam a reintegração dos funcionários, pagamento de salários em atraso, compensações por ações perdidas, benefícios e indemnizações.
A ação solicita ainda uma auditoria independente aos sistemas de inteligência artificial utilizados pela Meta, alegando que a empresa manteve em segredo os critérios usados para selecionar os trabalhadores abrangidos pelos despedimentos.
Numa reunião interna, citada pelos autores da ação, o diretor-executivo da Meta, Mark Zuckerberg, terá defendido que os modelos de IA aprendem observando a forma como trabalham profissionais altamente qualificados.
Os 26 autores da ação continuam formalmente empregados na Meta até 22 de julho, data prevista para a entrada em vigor dos despedimentos. Os advogados pediram ainda ao tribunal que os trabalhadores possam permanecer anónimos durante o processo, alegando receio de represálias, e alertam para as consequências que a perda imediata do emprego poderá ter, nomeadamente na manutenção do seguro de saúde durante gravidezes e tratamentos médicos, nos direitos de licença, na perda de benefícios financeiros e, em alguns casos, no estatuto de imigração.
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