ONU alerta para recrutamento de crianças por ambas as partes no conflito no Sudão
Porta-voz do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos alertou para o facto de este conflito "ser ofuscado por outros".
As partes em conflito no Sudão estão a recrutar crianças, um fenómeno que poderá comprometer, em parte, o futuro do país devido ao trauma a que estas são expostas, alertou fonte das Nações Unidas à Lusa.
"Temos assistido a padrões repetidos de recrutamento de crianças para o conflito" que envolvem tanto as Forças Armadas Sudanesas (SAF, na sigla em inglês) como as Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês) e grupos aliados, confirmou à Lusa, numa entrevista por telefone a partir de Nairobi, no Quénia, o porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) Seif Magango.
As crianças sudanesas têm sido, desde o início desta guerra, privadas de educação e estão a viver em situações em que não têm sequer condições mínimas de subsistência, como o acesso a água, eletricidade e cuidados de saúde, declarou o porta-voz.
Por outro lado, além de este conflito estar a deixar uma geração crescer marcada pelo trauma e sem acesso a condições básicas de vida, existem dados que provam que "ambos os lados estão a recrutar crianças para combater", indicou Magango.
"O impacto deste conflito nas crianças tem sido imenso", reiterou.
Por seu turno, o responsável declarou que o conflito, iniciado há praticamente três anos devido a uma disputa de poder entre dois generais, tem provocado efeitos que vão além das mortes e destruição imediata, pois comprometem as gerações futuras e, intrinsecamente, o próprio futuro do país.
De uma forma geral, Magango descreve que o impacto global desta situação é "catastrófico para os civis", em que milhares morreram e milhões tiveram de se deslocar internamente e para países vizinhos, como o Chade e o Sudão do Sul.
Desta forma, esta crise humanitária é considerada uma das mais graves do mundo, mas enfrenta dificuldades de financiamento e de acesso, o que dificulta a resposta internacional.
"O Sudão é uma das piores crises humanitárias do mundo (...) e a ONU e os seus parceiros não conseguem apoiar totalmente todas as pessoas necessitadas", lamentou.
Magango alertou também para o facto de este conflito "ser ofuscado por outros" e de a cobertura ser alargada quando, efetivamente, "há um grande ataque".
"Não continuar a cobri-lo é abandonar o povo do Sudão", disse, defendendo que "todas as vidas no mundo são importantes".
O responsável apelou repetidamente a um cessar-fogo imediato e a uma solução política, considerando que "o conflito não pode continuar mais um dia, mais uma semana, mais um mês, mais um ano" e que "as armas devem calar-se no Sudão".
As RSF estão em guerra com o exército sudanês desde 15 de abril de 2023.
Consequentemente, cerca de 33,7 milhões de pessoas necessitam de ajuda urgente para sobreviver no Sudão e mais de 24 milhões de pessoas sofrem de insegurança alimentar aguda, alertou, em 09 de Abril, a Organização Não-Governamental (ONG) espanhola Ação Contra a Fome (Acción Contra el Hambre).
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