PRÍNCIPE SAUDITA AJUDOU A FINANCIAR A AL-QAEDA
Um príncipe saudita, genro do irmão do herdeiro ao trono, terá ajudado a financiar as células da al-Qaeda na Europa com dinheiro proveniente do tráfico de droga. A gigantesca trama está a ser investigada pelas polícias dos EUA, Espanha e Suíça, e levou já à detenção de um influente empresário catalão, que tinha a seu cargo a "lavagem" do dinheiro.
Segundo o jornal espanhol "El Mundo", as primeiras pistas surgiram em 1999, na sequência de uma vasta operação policial internacional contra os cartéis de droga da Colômbia, nomeadamente, contra o cartel de Calí. A troco de imunidade, dois "capos" colombianos, Carlos Ramón Zapata e Juan Garbiel Usuga, aceitaram revelar nomes e pormenores sobre as operações do cartel, tendo vindo à baila dois nomes que, à primeira vista, pareciam deslocados no âmbito de uma rede internacional de narcotráfico: os nomes eram os do empresário catalão José María Clemente e do príncipe saudita Nayef bin Sultan bin Fawwaz Al-Shaalan, que é casado com a filha do irmão do príncipe herdeiro saudita, Abdullah bin Abdul Aziz. Clemente tinha cadastro por branqueamento de capitais mas nunca havia estado envolvido no tráfico de droga, ao passo que Al-Shaalan, apesar de constar dos ficheiros da Agência norte-americana de Combate à Droga (DEA) desde a década de 80, não tinha qualquer interesse aparente em ver o seu nome associado aos cartéis colombianos.
Os investigadores americanos ficaram intrigados e resolveram investigar porque é que um príncipe saudita, multimilionário e proprietário de um banco em Genebra, decidiu sujar as mãos de "pó branco" a troco de alguns milhões de dólares - uma autêntica ninharia ao lado da sua fortuna pessoal.
'ARREPENDIDOS' AJUDAM
Contando com a ajuda dos "arrependidos" Zapata e Usuga, a Polícia americana montou uma armadilha a Al- -Shaalan e Clemente, que resultou na apreensão de mais de duas toneladas de cocaína, em Paris, em Maio de 1999. As investigações prosseguiram e, enquanto o príncipe saudita, alertado por um "deslize" da Polícia americana, procurava refúgio junto da família em Riade, Clemente acabou por ser preso em Dezembro do ano passado, em Barcelona, por ordem do juiz Baltazar Garzón.
As autoridades já tinham, por essa altura, uma ideia bem clara dos contornos da operação. De acordo com o "El Mundo", o verdadeiro objectivo do tráfico de droga era obter dinheiro para financiar o terrorismo, nomeadamente, as células europeias da rede al-Qaeda, liderada por Osama bin Laden. Para isso, o príncipe Al-Shaalan contava com os préstimos de Clemente, que se gabava de conseguir "branquear" qualquer verba, independentemente do seu montante ou proveniência, fosse ela o tráfico de armas, o cofre de algum ditador africano ou o contrabando de tabaco. Nessa tarefa, Clemente contava com uma vasta rede de "colaboradores", cuja única missão era fazer circular o dinheiro por forma a que fosse impossível provar a sua proveniência ilegal - tudo isto, claro está, a troco de uma "módica" comissão de 17 por cento.
SUÍÇOS INVESTIGAM
Um dos pontos de passagem do dinheiro era o banco Kanz, em Genebra, Suíça, propriedade de Al-Shaalan, cujas transacções estão agora a ser examinadas à lupa pelas autoridades helvéticas. Seria através deste banco que as verbas eram transaccionadas primeiro para a Colômbia, para pagar a droga, e depois, para canalizar os proveitos da sua venda, devidamente "limpos", para os terroristas.
As investigações prosseguem, estando agora os EUA e a Espanha envolvidos numa "batalha" legal pela extradição de Clemente, exigida pela Justiça americana mas negada por Madrid.
UM 'GOYA' A TROCO DE DROGA
Para "sinalizar" a compra de duas toneladas de cocaína ao cartel de Calí, o empresário José María Clemente terá usados duas valiosas pinturas, uma das quais um Goya datado de 1793.
Segundo a Procuradoria da Flórida (Sul dos EUA), os quadros "Assalto à diligência", de Goya, e "Busto de mulher jovem", do impressionista japonês Tsuguharu Foujita (1924) terão sido entregues por Clemente a um intermediário dos narcotraficantes para custear as despesas iniciais do carregamento de droga que haveria de ser capturado pela Polícia em Paris. Os quadros foram levados de Espanha para os EUA em Setembro de 2001, tendo sido mais tarde apreendidos pelas autoridades americanas.
Um dos narcotraficantes arrependidos acusou directamente Clemente de ser o proprietário das pinturas, mas a proprietária de uma galeria de Barcelona, Helena de Saro, veio recentemente reclamar a propriedade dos quadros. O caso está em tribunal, não tendo sido divulgado o valor das obras de arte apreendidas.
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