Até ontem, três portugueses residentes na Costa do Marfim tinham pedido protecção consular ao Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) de Lisboa face ao agravar da situação no terreno. As autoridades francesas colaboraram, tendo os cidadãos lusos sido encaminhados para uma das zonas sob protecção militar gaulesa, avançou ao CM fonte do MNE.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros português não dispunha ontem de informações sobre o número total de cidadãos lusos a residir na Costa do Marfim, adiantando apenas que "são muito poucos". Relativamente a uma eventual retirada dos portugueses daquele país, foi- -nos dito que "é uma questão que terá que ser posta pelos franceses ao nosso governo, após pedido formulado pelos interessados". Um dos três portugueses residentes em Abidjan, casado com uma marfinense e que não tenciona abandonar o país, viu já a sua protecção garantida na sequência de um pedido do pai, em Lisboa, ao MNE. Outros dois portugueses estão já igualmente sob protecção das tropas francesas.
Nas últimas horas, a situação na Costa do Marfim agravou-se bastante. Depois de a aviação marfinense ter matado, na cidade rebelde de Bouaké, nove soldados franceses, precipitando a retaliação das tropas gaulesas, a tensão subiu ontem de tom em Abidjan, e noutros pontos do país, com vários incidentes entre manifestantes e soldados gauleses. A França reforçou já o seu contingente militar no terreno com mais 400 homens.
Milhares de apoiantes do presidente Laurent Gbagbo saíram à rua na sequência do apelo do grupo radical 'Jovens Patriotas', que instou os seus seguidores "a libertar o país, morrer com dignidade e não na vergonha". Cerca de 10 mil manifestantes tentaram, sem êxito, tomar o aeroporto internacional de Abidjan, sob controlo das tropas gaulesas, havendo registo de pelo menos três mortos e 78 feridos na sequência deste incidente. Ainda em Abidjan, cerca de 100 estrangeiros foram transferidos para um quartel, no sentido de ser garantida a sua segurança.
"O VIETNAME NÃO SERÁ NADA À VISTA DISTO"
As autoridades da Costa do Marfim já advertiram Paris de que a resistência será feroz. O presidente do Parlamento daquele país africano ameaça mesmo com um conflito "pior que a guerra do Vietname".
"O Vietname não será nada quando comparado com o que vamos fazer aqui", ameaçou o presidente da Assembleia Nacional da Costa do Marfim, Mamadou Koulibali, numa altura em que o governo marfinense acusou já os franceses de estarem a fornecer armas às forças rebeldes.
Quanto ao executivo de Paris, que responsabilizou pessoalmente o presidente Gbagbo pelo que possa acontecer aos franceses residentes na Costa do Marfim, decidiu propor a adopção de "novas medidas" contra a Costa do Marfim, depois de o Conselho de Segurança das Nações Unidas ter aprovado uma declaração que condena o ataque aéreo marfinense. Entre as sanções que deverão ser propostas pelo executivo francês, conta-se o decretar de um embargo de armas àquele país africano.
OUTROS DESENVOLVIMENTOS
VIOLÊNCIA
Acções violentas contra símbolos da presença francesa no país, manifestações contra a França e pilhagens de alvos gauleses são o reflexo do intensificar da violência na Costa do Marfim. Há ainda registo de quatro colégios franceses incendidados em Abidjan.
DESMENTIDO
O Exército francês desmentiu ontem ter matado três dezenas de manifestantes e ferido outros 100 junto ao aeroporto de Abidjan, contrariando acusações do presidente do Parlamento da Costa do Marfim, Mamadou Koulibali. Durante a noite ouviram-se tiros naquela zona.
APELO PAPAL
O Papa João Paulo II apelou ontem ao fim dos confrontos e ao respeito pelo acordo de paz na Costa do Marfim, na sequência da escalada de violência desencadeada pelo bombardeamento das forças militares marfinenses que causou a morte de nove soldados franceses.
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