Alguns dos principais aliados de Silvio Berlusconi procuraram ontem distanciar-se da postura belicosa e pouco democrática do primeiro-ministro italiano, afirmando que não existem razões para alegar fraude nas eleições legislativas e que a recontagens de votos por ele exigida muito provavelmente não alterará o resultado, que foi a vitória da oposição de centro-esquerda liderada por Romano Prodi.
“Sempre existiram verificações dos resultados eleitorais, mas não acredito que estas venham alterar os resultados das eleições”, afirmou o líder da União dos Democratas Cristãos, Lorenzo Cesa, um dos principais aliados do primeiro-ministro, tentando desdramatizar a exigência de recontagem dos votos feita por Berlusconi depois de ter perdido as eleições para a oposição por escassa margem – apenas cerca de 25 mil votos na Câmara dos Deputados.
Também Ignazio La Russa, dirigente da Aliança Nacional, outro dos partidos que fazem parte da coligação de centro-direita liderada por Berlusconi, veio a público distanciar-se das acusações de fraude feitas pelo primeiro-ministro. “Não vi qualquer indício de fraude. Ouvi falar de algumas irregularidades graves, mas isso não é novidade. Isso acontece em todas as eleições”, afirmou La Russa.
Os tribunais começaram ontem a verificar cerca de 43 mil votos contestados, mas Berlusconi exige que sejam recontados cerca de um milhão de votos dados como nulos. Ora, a lei italiana apenas permite a recontagem imediata dos votos oficialmente registados como contestados, ou seja, os 43 mil que já estão a ser verificados. No entanto, segundo a Imprensa italiana, Berlusconi não parece disposto a desistir assim tão facilmente e estará a ponderar a possibilidade de, enquanto primeiro-ministro ainda em exercício, aprovar um decreto ordenando uma recontagem dos votos em larga escala.
“Ele não sabe perder, não consegue admitir que nós ganhámos. Nunca o fará, é incapaz de admitir a verdade”, afirmou Prodi, que se mostrou tranquilo e afirmou que tudo deverá passar “ em alguns dias”.
IMPÉRIO MEDIÁTICO PARA OS FILHOS
Silvio Berlusconi está a estudar a possibilidade de transferir o seu império mediático para os filhos, na sequência da vitória da oposição (que ele ainda não reconheceu) nas eleições legislativas de domingo e segunda-feira.
Segundo o jornal ‘Corriere della Sera’, o primeiro-ministro procura, desta maneira, escapar às acusações de conflito de interesses que muito provavelmente recairiam sobre ele se a oposição aprovasse a prometida lei reguladora para o sector da Comunicação Social.
Ainda de acordo com o jornal, que cita uma fonte próxima de Berlusconi, o primeiro-ministro deverá transferir a sua quota de 38 por cento do império televisivo Mediaset para os seus cinco filhos, mas a filha mais velha, Marina, presidente da Fininvest, e o filho Piersilvio, vice-presidente da Mediaset, deverão receber a ‘parte de leão’, comparativamente aos outros três irmãos, filhos do segundo casamento de Berlusconi, que não detêm qualquer cargo executivo no império mediático do pai.
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