No dia estabelecido para a entrega das armas dos rebeldes timorenses, o líder dos revoltosos, major Alfredo Reinado, deu o exemplo, ao ser o primeiro a fazê-lo, junto das forças australianas. Ontem, faltava ainda entregar o armamento do grupo dos majores Marcos Tilman e Alves Tara mas o processo, accionado pelo presidente Xanana Gusmão, pode abrir caminho à resolução da crise político-militar em Timor-Leste.
A entrega das armas do oficial amotinado e dos 20 efectivos das Forças Armadas e da Polícia que se mantêm acantonados em Maubisse decorreu naquela vila montanhosa situada a 60 quilómetros de Díli. A cerimónia realizou-se após a chegada de um enviado do presidente Xanana com o documento que ordenava ao major Reinado a entrega da sua arma e as dos seus homens.
No documento de quatro pontos, intitulado ‘Ordem de Entrega de Armamento’, Xanana Gusmão cita o acordo que está na base da presença em Timor-Leste de forças militares e policiais australianas. O número oito do referido acordo, denominado ‘Acordo Entre os Governos da Austrália e da República Democrática de Timor-Leste Concernente à Restauração e Manutenção da Segurança em Timor-Leste’, atribui às forças australianas a “responsabilidade de monitorar o acantonamento das forças em áreas designadas”.
Após referir-se no documento a Reinado como “major (...) comandante da Componente Naval das Falintil–Forças de Defesa de Timor-Leste e comandante interino da Polícia Militar das F-FDTL, presentemente acantonado em Maubisse”, ordenou-lhe que entregasse de imediato as armas.
Em seguida, o major mandou formar os 20 homens sob o seu comando e entregou a sua arma automática M16 e nove carregadores de munições. A operação repetiu-se mais 14 vezes, com cada um dos homens do grupo a entregar a arma. No total, 12 armas automáticas – dos tipos M16, G3 e FN– e três pistolas (Glock e Browning), além de numerosas munições.
Aos jornalistas, o major Reinado respondeu em português, tétum, inglês e ‘bahasa’ indonésio, negando ter negociado com Xanana. “Não tenho capacidade para negociar. Recebi uma ordem do meu Comandante Supremo e cumpri-a”, afirmou. Questionado sobre se tinha entregue todas as armas sob a sua jurisdição, respondeu que faltavam ainda as do grupo do majores Marcos Tilman e Alves Tara.
Saliente-se que o comandante das forças australianas, brigadeiro Mick Slater, alertou para o grande número de armas espalhadas no país, sem que se saiba ao certo quantas são, e para a dificuldade de todas virem a ser recolhidas.
"BOM COMEÇO PARA A ESTABILIZAÇÃO"
O primeiro-ministro timorense, Mari Alkatiri, manifestou-se ontem satisfeito com a entrega de armamento efectuada pelo líder dos militares revoltosos. “É um bom começo, para estabilizar o país. Espero que outros sigam o exemplo”, afirmou Alkatiri.
Questionado se, com esses “outros”, se referia a grupos de civis armados que nas últimas semanas protagonizaram actos de violência em Díli, Alkatiri respondeu afirmativamente. “Não pode haver armas nas mãos de civis ou de pessoas que não pertençam a instituições como as Falintil–Forças de Defesa de Timor-Leste ou a Polícia Nacional de Timor-Leste”, declarou, categórico, o primeiro-ministro timorense.
ARMAS E MUNIÇÕES
O primeiro a entregar ontem a sua arma e nove carregadores foi o líder dos militares revoltosos, major Alfredo Reinado. Em seguida, foram os seus homens a fazê-lo, num total de 15 armas e munições. Faltava ainda o grupo dos majores Marcos Tilman e Alves Tara. Esperava-se a entrega de 40 a 50 armas.
O ACORDO FORMULADO
Um documento intitulado ‘Ordem de Entrega de Armamento’ regulamenta o processo, segundo o qual os rebeldes recebem protecção após entrega das armas.
NÚMERO DE REBELDES
O major Alfredo Reinado tem 20 homens sob o seu comando, desconhecendo-se quantos têm os grupos dos majores Tilmane e Tara. O grupo do tenente Gastão Salsinha rondará os 600 rebeldes.
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