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Brasil corre risco de perder a soberania da Amazónia para o crime organizado

"Nós queremos ajuda do mundo, mas não abrimos mão de um milímetro que seja de soberania", alertou o presidente do Supremo Tribunal Federal do Brasil.

18 de janeiro de 2024 às 19:20

O Brasil está a correr um risco efetivo e elevado de perder a soberania sobre a Amazónia não para uma potência estrangeira, como sucessivas autoridades brasileiras temem há décadas, mas para o crime organizado interno, que cada vez se apossa mais daquele vasto e rico território. O alerta foi feito pelo presidente do Supremo Tribunal Federal do Brasil, juiz Luiz Roberto Barroso, em entrevista à agência Reuters

"Há um risco real de se perder a soberania da Amazónia não para qualquer outro país, mas sim para o crime organizado. É preciso um empenho muito forte das autoridades brasileiras no enfrentamento aos crimes ambientais como a exploração e o comércio ilegal de madeira, mineração e desflorestação ilegais, invasão e ocupação ilegal de terras, assassínios de defensores da floresta, o tráfico de droga e o contrabando."-Defendeu o magistrado, referindo alguns dos crimes que mais crescem na Amazónia, para onde as maiores organizações criminosas do Brasil e outras de países vizinhos transferiram grande parte das suas ações ilegais altamente lucrativas aproveitando-se da vastidão da floresta e das gritantes falhas da segurança e da ausência e omissão do Estado.

Para Barroso, o mundo todo precisa contribuir neste momento para esse combate ao crime organizado que tomou conta da Amazónia e encurrala indígenas e não indígenas que vivem na área da floresta, e para garantir a essas populações formas de sobrevivência dignas e sustentáveis, sem o que o problema nunca será efetivamente resolvido.

Mas Barroso faz questão de vincar que o seu apelo à contribuição de outros países do mundo não implica na cedência de um milímetro sequer da Amazónia a nações estrangeiras.

"Nós queremos ajuda do mundo, mas não abrimos mão de um milímetro que seja de soberania. Mas as melhores cabeças do mundo têm de pensar um modelo de bioeconomia sustentável para a floresta, com a adoção de formas de sobrevivência para os 25 milhões de habitantes da região que não impactem negativamente o bioma. Sem isso, não será possível conter a progressiva degradação da região."-complementou o magistrado.

Barroso evitou fazer críticas ao atual governo, comandado por Lula da Silva, ou ao anterior, chefiado por Jair Bolsonaro, em relação a medidas tomadas ou não para defender a Amazónia, tomada de assalto por grupos criminosos de São Paulo e do Rio de Janeiro que se juntaram aos invasores tradicionais da floresta e ampliaram extremamente tanto a destruição da área verde, da terra e dos rios, quanto a insegurança e as mortes de inocentes.

Em janeiro do ano passado, dias após assumir a presidência do Brasil pela terceira vez, Lula da Silva anunciou ao mundo uma megaoperação conjunta das Forças Armadas e da Polícia Federal para ocupar realmente a Amazónia e expulsar mineiros ilegais, pescadores, madeireiros e traficantes de droga e acabar com a tragédia humanitária que esses invasores provocam nos povos originários, como os Yanomami.

A verdade é que essa operação nunca saiu do papel, foi substituída por ações isoladas e esporádicas de fiscais ambientais, e o crime organizado ocupou os espaços que deveriam ter sido ocupados pelo Estado e subjugou quem vive na floresta.

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