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Cerca de 2000 pessoas gritaram em Lisboa "Eu Sou Charlie"

Na praça dos Restauradores milhares de pessoas prestaram homenagem às vítimas do ataque em Paris.

08 de janeiro de 2015 às 23:13

Cerca de 2000 pessoas manifestaram-se esta quinta-feira na praça dos Restauradores, em Lisboa, pela liberdade de expressão e de imprensa, um dia depois do atentado à redação do jornal satírico Charlie Hebdo, em Paris, que fez 12 mortos. 

Após longos minutos de silêncio, com a multidão empunhando cartazes em que se lia, em francês, "Eu sou Charlie" - numa homenagem aos cartoonistas do semanário assassinados a tiro por três extremistas islâmicos que irromperam pela redação e abriram fogo -, ouviu-se uma salva de palmas. Aos pés da estátua, havia velas acesas e aí se iniciaram as palavras de ordem que pouco depois todos repetiam, muitas em francês, outras em português, em defesa do mesmo: pela liberdade, contra o medo, "Eu sou Charlie", "Todos Somos Charlie".

À Lusa, a jornalista freelancer francesa Marie-Line Darcy, que organizou o protesto em conjunto com outros jornalistas, destacou a importância de se declarar "Eu sou Charlie".

"Porque esse ato de barbárie nos atinge a todos: é tentar calar as pessoas, calar os jornais, calar a liberdade de expressão. Não é um jornal consensual, há pessoas que não gostam, mas estão aqui hoje, porque se trata de um ato simbólico, é o princípio da democracia, o princípio da liberdade", defendeu. O escritor Rui Zink declarou estar presente "por autodefesa, contra todos os filhos da puta que estão do lado da morte, contra a vida".

"Por mais violento que seja o humor, quando o humorista dispara, dispara palavras ou desenhos - e às vezes atinge o alvo e dá tiros certeiros, mas é tudo metáfora. E o Charlie Hebdo não era contra religião nenhuma: eles disparavam em todas as direções - até na direção dos ateus", sustentou.

Ricardo Araújo Pereira elogia cartoonistas

O humorista Ricardo Araújo Pereira elogiou a coragem dos cartoonistas que pagaram com a vida o direito de fazerem o seu trabalho. "Acho admirável que aquelas pessoas tenham morrido em nome de uma coisa que me é cara, que é a vontade de fazer rir os outros. Eles morreram por uma piada, na verdade foi isso que aconteceu. Eu devo dizer que o meu caso é muitíssimo longínquo do deles: se as consequências do meu trabalho fossem aquelas, eu mudava de atividade profissional imediatamente", comentou.

"Aqueles homens sabiam que aquela podia ser uma consequência do trabalho deles e, mesmo assim, continuaram a fazê-lo. Eu não teria a mesma coragem, não sou um herói", observou, acrescentando que gostaria "que o Charlie Hebdo saísse esta semana em França, como saiu na semana passada", porque não lhe "passa pela cabeça que eles, os criminosos, tenham ganho". "Eles não ganharam", sublinhou.

Em resposta a quem considera que aqueles profissionais não faziam jornalismo, só faziam uns bonecos, o jornalista Ricardo J. Rodrigues foi contundente: "A sátira é o exercício maior da liberdade de expressão - e, dentro da liberdade de expressão, cabe obviamente a liberdade de imprensa. Ao jornalismo cabe relatar os factos, à sátira cabe fazer-nos pensar neles, e era isso que o Charlie Hebdo fazia".

"É pena que não tenhamos mais exemplos desses, nomeadamente em Portugal", comentou, vincando que "tudo o que é um exercício de liberdade de expressão não é negociável e que, neste caso, era o extremo desse exercício". Também o escritor e ilustrador Pedro Vieira, cujos 'cartoons' se poderiam bem enquadrar numa publicação como o Charlie Hebdo, disse à Lusa que, no seu entender, "não há limites nem para a liberdade de imprensa, nem para o humor".

"Os limites que alguém que se considera ofendido encontre na liberdade de imprensa e no humor podem ser debatidos em instituições que existem nas sociedades liberais e democráticas, há a justiça para isso, e não a lei do terror para impor limites às pessoas. "Felizmente, essa lógica depreciativa em relação ao trabalho que se fazia no Charlie Hebdo não é muito generalizada, e, a mim, preocupa-me pouco. Eles até podiam nem ser jornalistas de todo: podiam ser uma associação cultural, um grupo de amigos que gostava de se meter com a política e a religião", exemplificou.

Neste caso, contudo, considerou ser "profundamente injusto" que haja quem pense que o trabalho deles não era jornalístico, "porque o humor é uma das formas salutares de informação e, muitas vezes, consegue refletir melhor aquilo que se passa à nossa volta do que o jornalismo dito sério".

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