Tensões no Mar Vermelho permitem que clientes internacionais olhem para Portugal como um parceiro de negócios privilegiado.
As tensões no Mar Vermelho estão a atrasar as entregas em áreas como a eletrónica informática, têxtil e automóvel e a encarecer os custos do transporte para Portugal, mas setores como o calçado encaram esta crise como uma oportunidade.
Em declarações à agência Lusa, o diretor-geral da Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição (APED) descarta, nesta altura, problemas de escassez de produtos, quer no retalho alimentar, quer especializado.
Gonçalo Lobo Xavier reporta, contudo, um atraso médio de duas semanas nas entregas em algumas categorias de produtos e componentes, "essencialmente ligados à eletrónica de consumo e informática e têxtil/moda".
No setor alimentar, refere atrasos na chegada de "algum peixe congelado", mas diz que "já está a ser substituído, na maioria dos casos, por outros fornecedores e com outras rotas".
Já sentido por "toda a cadeia de valor" é, segundo o diretor-geral da APED, o aumento dos custos dos fretes de transporte e o encarecimento em "cerca de 20 a 30%" dos contentores a nível mundial. Adicionalmente, também os custos dos seguros de transporte que passam naquela rota "estão a aumentar significativamente".
"Tem havido uma procura por rotas alternativas, mais lentas e mais caras, que terão necessariamente impacto nos preços dos produtos", afirma Gonçalo Lobo Xavier, prevendo que "este impacto, se a situação se mantiver, irá sentir-se mais, seguramente, dentro de três/quatro semanas".
A sofrer os efeitos dos constrangimentos logísticos no Mar Vermelho estão também setores como o automóvel e o têxtil/vestuário, com o primeiro a apontar uma diminuição das encomendas dos construtores internacionais, nomeadamente na Alemanha, e o segundo a reportar atrasos nas entregas de "matérias-primas essenciais à produção" (como fios, linhas, telas, malhas, substâncias químicas e acessórios), pondo "em causa o tempo de resposta" daquela indústria.
"A informação que temos dos nossos clientes -- que são construtores ou produtores de primeira linha para os construtores - é que há um processo de diminuição da atividade para gerir os fluxos de logística e, nalguns casos, sabemos que poderá haver já planos para diminuir a atividade, com a supressão de um turno, o que terá um efeito na indústria portuguesa", afirmou à Lusa o presidente da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA).
Segundo José Couto, "na Alemanha houve alguns construtores [automóveis] que abrandaram, muito mesmo, e houve algumas fábricas que tiveram paragens estratégicas".
"Em Portugal, pelo menos os nossos associados ainda não sentiram a necessidade de parar completamente, mas diminuíram bastante a atividade", disse, salientando que a rota do Mar Vermelho "é muito importante para o setor automóvel" europeu, que "não tem o hábito de fazer grandes 'stocks', tudo o que produz é entregue na linha do cliente um dia ou dois depois".
Já a diretora executiva da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP) destaca que, "numa indústria tão competitiva e global" quanto a deste setor, "aumentos de preços têm sempre impacto negativo e perda de competitividade".
E se,"para já, os aumentos de preços estão sobretudo relacionados com o aumento do custo dos transportes nestas rotas", Ana Dinis antecipa que "a escassez na oferta de algumas matérias-primas no mercado (derivada dos atrasos nas entregas) naturalmente fará o preço destes artigos subir ainda mais -- mesmo procurando encontrar fornecedores alternativos ou matérias-primas alternativas".
"A verdade é que existem muitas dependências, como vimos no passado recente, que não fáceis de substituir rapidamente", admite, referindo que "as empresas têm estado a tentar gerir a situação, atrasando encomendas e gerindo as entregas de encomendas mais urgentes, mas, a continuar o problema, as consequências poderão ser mais danosas".
Em contraciclo parece estar a indústria portuguesa do calçado, que, colhendo os louros da lógica de 'cluster' que assume como um dos seus "grandes argumentos competitivos", continua a conseguir "responder rapidamente às solicitações de mercado".
"A crise do Mar Vermelho pode até ser uma oportunidade para os produtores europeus como Portugal", afirmou à agência Lusa o diretor de comunicação da Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS), enfatizando que "existem em Portugal fornecedores muito capazes de solas, de outros componentes e de curtumes e isso permite que os clientes internacionais olhem para Portugal como um parceiro de negócios privilegiado".
Apontando a quota "próxima dos 90%" da Ásia na produção mundial de calçado, Paulo Gonçalves considera que "alguns episódios como este no Mar Vermelho, ainda que infelizes na sua essência, podem contribuir para uma nova ordem mundial e para que os clientes percebam que devem diversificar a sua gama de fornecedores".
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.