Trump demitiu a secretária do Departamento de Segurança Interna após uma publicidade de 220 milhões onde ela se destacava face ao presidente. Foi a gota de água, depois de ter sobrevivido a várias polémicas.
O mandato de Kristi Noem enquanto secretária do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS) chegou ao fim na quinta-feira. Noem foi demitida por Donald Trump depois de ter comparecido perante o Comité Judicial do Senado e de ter dado justificações sobre um contrato publicitário controverso, avaliado em 220 milhões de dólares, e no qual surge destacada em relação ao presidente norte-americano. Segundo a imprensa local, mesmo depois de Noem ter acumulado um histórico de controvérsias, esta foi a gota de água, levando várias pessoas influentes próximas de Trump a pedirem a sua demissão.
Noem ganhou notoriedade em 2019, quando era ainda governadora da Dakota do Sul. Esse destaque deveu-se, na altura, à sua resistência face à imposição de restrições sanitárias durante a pandemia da COVD-19 - contrariando, assim, as recomendações do governo de Joe Biden.
Noem publicou uma biografia em 2024, intitulada de No Going Back e nela contou como matou o seu cão Cricket de 14 meses a tiro. Segundo relatou, o animal era "indomável" e, considerando-o perigoso e "inútil" como cão de caça, decidiu abatê-lo numa pedreira.
A confissão acabou por provocar indignação pública e críticas bipartidárias, especialmente por parte de ativistas de direitos dos animais, tendo algumas figuras públicas questionado a sua sensibilidade. Em resposta, Noem defendeu que, nas quintas, às vezes é preciso fazer "escolhas difíceis", mas ainda assim, não lhe foram poupadas críticas e Noem acabou por receber o rótulo de "assassina de cães".
O facto de Noem ter matado o seu cão não afastou, contudo, a possibilidade de Trump a nomear como secretária de Segurança Interna - responsável pelas fronteiras do país e pela aplicação da política de imigração. Já no seu novo cargo, não demorou muito até que Noem fosse notícia, isto porque no primeiro dia à frente do Departamento de Segurança Interna, ao subir ao palco para se dirigir pela primeira vez a toda a sua equipa e, diante das câmeras, caminhou até ao pódio ao som da música Hot Mamma, de Trace Adkins, que contém frases sobre lingeri, atração sexual e na qual é sugerido "transformar este lugar numa sauna".
O momento acabou por deixar o público num silêncio constrangedor e as críticas em torno da canção escolhida multiplicaram-se.
Já a meio do mandato, começaram a surgir rumores sobre um possível caso extraconjugal entre Noem e Corey Lewandowski, um assessor próximo de Trump que havia trabalhado com ela durante o período em que era governadora.
Esta semana, durante a sua audiência no Congresso, Noem recusou-se a responder às questões dos democratas sobre a natureza do seu relacionamento com o assessor, incluindo se haviam tido "relações sexuais" durante o período em que estiveram no Departamento de Segurança Interna. Sobre isso disse apenas que se tratava de "lixo de tabloide".
Anteriormente, ambos já haviam negado publicamente um relacionamento íntimo, mas diversos meios de comunicação social continuam a dar asas a estes rumores. Lewandowski também acabou afastado do Departamento de Segurança Interna.
O ponto mais alto das controvérsias ocorreu a 7 de janeiro. Poucas horas depois de Renee Good, uma cidadã americana, ter sido baleada em Minneapolis por um agente da imigração, Noem deu uma conferência de imprensa onde se vangloriava da drástica quebra nas travessias ilegais. Os jornalistas acabaram por questioná-la sobre o incidente e Noem, que na altura tinha escassas informações sobre o assunto, rotulou apenas Good como "terrorista" por ter alegadamente tentado matar um dos agentes da imigração. Os vídeos do assassinato de Renee Good acabaram, porém, por inundar as redes sociais e por refutar a versão dos factos apresentada pela secretária.
Semanas depois, o mesmo aconteceu com Alex Pretti, um enfermeiro de 37 anos que foi assassinado em Minneapolis por agentes federais. Noem aproveitou o facto de Pretti estar armado para o classificar também como um "terrorista" que queria alegadamente matar as autoridades. À semelhança do que aconteceu com Renee Good, começaram a circular vários vídeos nas redes sociais que comprovaram que as alegações da secretária do Departamento de Segurança Interna eram falsas. Pretti interveio apenas num caso em que os agentes haviam agredido uma mulher, foi desarmado e baleado dez vezes enquanto se encontrava indefeso no chão.
Noem enfrentou também repetidas acusações de desperdício de fundos da agência, isto porque aprovou a compra de dois jatos de luxo Gulfstream G700 e o departamento tinha ainda planos para adquirir uma terceira aeronave - um Boeing 737, por cerca de 70 milhões de dólares.
A secretária defendeu estes gastos ao afirmar que, além de serem "aeronaves de comando e controlo de longo alcance", a frota seria usada para deportações. No entanto, esta semana um senador mostrou uma fotografia de um quarto luxuoso aparentemente a bordo de um dos jatos. Sobre isso, a secretária reconheceu que, de facto, o avião tinha um quarto, mas que este estava a ser "reformado".
A secretária conseguiu sobreviver, ainda assim, a todas estas polémicas. No entanto, os rumores de uma possível demissão surgiram depois de uma campanha publicitária de 220 milhões de dólares na qual ela era a estrela.
O anúncio mostra Noem a usar um chapéu de cowboy e a montar um cavalo em Dakota do Sul - o estado que em tempos governou. A montagem inclui também imagens dos agentes do Departamento de Segurança Interna e oficiais federais a saudarem Trump. "Se cruzares a fronteira ilegalmente, nós iremos encontrar-te", diz. "Quebras as nossas leis e iremos punir-te. Se agredires cidadãos americanos, haverá consequências".
O senador republicano John Kennedy acabou por confrontar Noem com este anúncio, na terça-feira, e sugeriu que o vídeo a promovia mais do que o presidente. Noem respondeu que Trump aprovou a campanha publicitária. "O presidente incumbiu-me de transmitir esta mensagem ao país e também a outros países onde víamos a invasão aproximar-se", afirmou.
Porém, em entrevista à agência de notícias Reuters, Trump acabou por negar estas alegações ao dizer que "nunca soube de nada a esse respeito".
O mandato de Noem chegou ao fim na quinta-feira.
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