D. Francisco da Mata Mourisca, presidente do Movimento Pro Pace e bispo do Uíge, Angola, promove o II Congresso Pro Pace de 2 a 6 de Março, em Luanda. O ex-primeiro-ministro português Cavaco Silva é um dos oradores convidados.
Correio da Manhã – Qual é o objectivo do II Congresso Pro Pace?
D. Francisco da Mata Mourisca – O objectivo é consolidar a paz e preparar a sociedade civil para que as próximas eleições decorram num clima democrático. Aliás, pensamos repetir o congresso nas diferentes províncias angolanas para criar assim uma rede de opinião pública interessada no tema.
– Existe mesmo paz no país?
– Existe. Mas é preciso consolidá-la com uma boa democracia. É preciso exercer a democracia para combater a pobreza. Não é por acaso que os países ricos são fortemente democráticos. Por isso, precisamos de criar o ambiente democrático de respeito pela democracia, pela oposição, pelos direitos humanos, para que as eleições decorram num clima de democracia, sem haver fraudes e sem que sejam depois contestadas.
– Mas existem mesmo condições para a realização de eleições livres?
– Se todos trabalharem com entusiasmo e com seriedade, penso que sim. O mais difícil é talvez preparar as comunicações porque é preciso que as eleições sejam exercidas pelo povo. As estradas estão num estado calamitoso e isso vai ser uma dificuldade. Esperemos que o governo acelere este processo para que existam ‘de facto’ infra-estruturas rodoviárias.
– As armas estão, portanto, silenciadas em todo o país?
– Absolutamente. Estamos em paz. Graça a Deus, nunca mais houve combates, nunca mais houve ataques e isto é uma realidade que consola a todos.
– O Movimento Pro Pace ajudou a parar com a guerra civil?
– Sim. De uma certa forma contribuímos. Em Julho de 2000 realizámos, em Luanda, o congresso para a paz. As conclusões desse encontro defendiam a necessidade do diálogo entre as partes. Esse congresso despertou a consciência de muitas pessoas para a paz no país.
– A Igreja Católica angolana vai ajudar a preparar as eleições?
– Uma das formas de participar é realizar este congresso. Vai ser um contributo da Igreja Católica para dar às eleições um ambiente de transparência, de liberdade e de justiça.
– Quais são os temas que vão ser debatidos no congresso?
– O II Congresso Pro Pace será subordinado ao tema ‘Construtores de Democracia’ e vai decorrer no auditório da Universidade Católica, em Luanda. Durante os trabalhos do congresso, os participantes vão abordar questões como ‘Direitos Humanos e Democracia’, ‘Eleições e Democracia’, ‘Alternância de Poder e Democracia’ e ‘Liberdade de Imprensa e Democracia’.
– Por que é que convidou o ex-primeiro-ministro Cavaco Silva?
– Porque é um homem sério, com prestígio internacional e que está preparado para o tema que vai apresentar ‘Democracia e Desenvolvimento’. Sei que está muito ligado a Angola, é um grande amigo de Angola, muito bem considerado aqui. São estas as razões do convite e não há nada a especular sobre o assunto.
D. Francisco da Mata Mourisca, pertence à Ordem dos Franciscanos Capuchinhos onde foi Provincial, antes de ir para Angola. É bispo de Uíge desde 1967, há 38 anos. A diocese de Uíge fica no nordeste de Angola, zona maioritariamente da etnia kikongo. o prelado destacou-se sobretudo na construção da paz a vários níveis. É o grande dinamizador do Pró Pace, um movimento nascido ainda no tempo da guerra civil para promover a pacificação.
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