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Natascha Kampusch e Wolfgang Priklopil tinham uma relação ‘terna’, mas isso não impedia que ele recorresse constantemente ao terror para a manter debaixo do seu domínio. A jovem defende-o, afirmando que “ele não era nenhum monstro”, mas sempre soube que ele lhe estava a “fazer mal”.
Apesar do silêncio a que as autoridades austríacas se remeteram sobre o drama que chocou o país, a pouco e pouco vão sendo conhecidos mais pormenores, que permitem conhecer melhor a forma como Priklopil usou uma mistura de chantagem psicológica, ameaças de violência física e falso carinho para manipular os sentimentos de uma criança inocente e convencê-la de que ele era a pessoa mais importante do mundo para ela.
‘PAIS NÃO A QUERIAM’
Primeiro que tudo era preciso acabar com a esperança de salvamento, e nada melhor do que convencê-la de que os pais não se interessavam pelo que lhe viesse a acontecer. “Ele disse-me que se fartou de telefonar aos meus pais para pedir um resgate, mas eles nem sequer atendiam o telefone. Ele disse-me que, se isso acontecia, era porque não queriam saber de mim, era porque eu não era importante para eles”, terá – segundo a revista austríaca ‘News’ – contado a jovem à Polícia.
A maior parte das vezes, Priklopil tratava-a bem. Trazia-lhe roupas e livros, contava-lhe histórias e, passado algum tempo de cativeiro, passou a deixar que ela jantasse com ele em casa e visse filmes na televisão. Outras vezes era violento, mas Natascha “prefere não falar disso”.
Segundo a revista, que cita fontes ligadas à investigação, o sequestrador não hesitava em recorrer às ameaças. Dizia-lhe, por exemplo, que a porta da ‘masmorra’ estava armadilhada e que explodiria se ela tentasse fugir. Quando saíam para ir ao jardim ou a museus, ele fazia questão de frisar que estava armado e que se Natascha tentasse fugir os matava aos dois.
A jovem tem-se recusado terminantemente a falar do seu relacionamento íntimo com o raptor, mas terá assegurado à Polícia que Priklopil “não era nenhum monstro sexual”. “Tínhamos uma relação terna, mas eu sempre soube que ele estava fazer-me mal”, admitiu.
Outra das ‘armas’ do raptor era tentar convencer Natascha de que estava a protegê-la dos males do mundo. Mostrava-lhe artigos de jornal sobre toxicodependentes e alcoólicos, e discutia com ela acontecimentos como a guerra no Iraque, para depois lhe dizer invariavelmente: “Vês, eu estou a proteger-te destas coisas terríveis”.
Isolada do exterior e constantemente submetida a tamanha lavagem cerebral, Natascha não teve outro remédio senão acreditar. “Ele dizia que estávamos os dois no mesmo barco e que éramos as únicas pessoas que interessavam”, terá Natascha dito à Polícia.
Com o passar do tempo, a jovem convenceu-se de que os pais tinham desistido dela, razão pela qual agora mostra certas reservas no contacto com eles. Desde que foi libertada, apenas se encontrou uma vez com os progenitores, e depois disso apenas tem falado ao telefone com a mãe.
SEQUESTRO INSPIRADO EM LIVRO
A rádio austríaca ORF noticiou que existem semelhanças “impressionantes” entre o sequestro de Natascha e o romance policial ‘O Coleccionador’, de John Fowles, publicado em 1963. O livro – que deu origem a um filme pouco conhecido – relata a história de um homem solitário e complexado que sequestra uma estudante de História da Arte e a mantém cativa num casarão longe da cidade. A Polícia austríaca está a investigar se o livro faz parte da extensa biblioteca existente na casa de Wolfgang Priklopil.
MÃE APELA
A mãe de Natascha, Brigitta Sirny, pediu ontem à Imprensa para “deixar a sua filha em paz”. “Toda esta pressão está a ser de mais para ela e para nós”, afirmou.
DETECTIVE
Quando Natascha foi raptada, em 1998, o pai, Ludwig Koch, contratou um detective para tentar provar que a mulher, de que se separara, estava por detrás do rapto.
ADVOGADO
O advogado de Natascha afirmou-se ontem “devastado” após uma visita à ‘masmorra’ onde ela viveu oito anos. “A realidade é mais dura do que imaginamos”, afirmou.
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