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Empresa portuguesa vandalizada nas manifestações em Moçambique fecha portas

Empresa Dimatel, dedicada à distribuição de material elétrico, está há 19 anos em Maputo.

24 de março de 2026 às 11:09

A empresa de origem portuguesa Dimatel, instalada há 19 anos em Maputo, vai encerrar portas em 31 de março, deixando pelo menos 30 trabalhadores no desemprego, após ter sido vandalizada e pilhada nas manifestações pós-eleitorais.

Fonte da empresa disse esta terça-feira à Lusa que as suas instalações, no centro de Maputo, após as eleições gerais de 9 de outubro de 2024, foram vandalizadas e o seu interior pilhado, onde chegaram a morrer duas pessoas, durante esses momentos de caos pós-eleitoral.

Os administradores da empresa, acrescentou a fonte, chegaram a dormir no interior das instalações, durante os protestos, tentando evitar novos saques, que se repetiram em 15 de janeiro de 2025, precisamente no dia da tomada de posse de Daniel Chapo como quinto Presidente de Moçambique, na sequência das eleições gerais.

A Dimatel, filial moçambicana de uma empresa portuguesa, dedica-se à distribuição de material elétrico e começou a comunicar a clientes e fornecedores o "encerramento definitivo" das atividades.

"É com grande pesar que comunicamos o encerramento definitivo das nossas atividades, com efeitos a partir dia 31 de março de 2026", lê-se numa carta a que a agência Lusa teve acesso.

A decisão, explica, "resulta de um conjunto de fatores adversos enfrentados ao longo do ano de 2025", nomeadamente a "instabilidade social e manifestações que culminaram na vandalização" do armazém e escritório, bem como as "dificuldades persistentes na importação de mercadorias" e a "escassez de divisas no mercado, com impacto direto na sustentabilidade do negócio".

"Reiteramos o nosso sincero agradecimento por todos estes anos de colaboração, confiança e apoio. Levamos connosco memórias de que construímos relações sólidas, baseadas no respeito, profissionalismo e amizade", despede-se ainda.

Mais de 400 pessoas morreram entre outubro de 2024 e março de 2025, sobretudo em confrontos com a polícia, durante os protestos pós-eleitorais em Moçambique, considerados os mais graves em décadas, convocados pelo candidato presidencial Venâncio Mondlane, que nunca reconheceu os resultados eleitorais e a vitória de Daniel Chapo, apoiado pela Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo).

Os protestos degeneram na vandalização e saque de centenas de empresas e instituições públicas em todo o país.

O político moçambicano Venâncio Mondlane disse no início deste mês que os cinco processos-crime em que é acusado no âmbito das manifestações pós-eleitorais já foram enviados ao Tribunal Supremo, que vai julgar os casos, declarando-se pronto para o julgamento.

"Caros amigos, estou aqui apenas para vos inspirar, ataques vêm sempre, agora uma informação em primeira mão: o meu processo de cinco crimes nesta altura já mandaram ao Tribunal Supremo e eu disse ao advogado para que diga ao juiz conselheiro que vai julgar o meu caso ou que me vai julgar a mim que mando cumprimentos", disse Venâncio Mondlane.

Em julho, o ex-candidato presidencial foi acusado pelo Ministério Público (MP) de cinco crimes, no âmbito das manifestações pós-eleitorais, incluindo incitamento à desobediência coletiva e instigação ao terrorismo, que o próprio nega.

O MP imputa a Venâncio Mondlane a "autoria material e moral, em concurso real de infrações", dos crimes de apologia pública ao crime, incitamento à desobediência coletiva, instigação pública a um crime, instigação ao terrorismo e incitamento ao terrorismo, mas o julgamento ainda não foi agendado, devendo ser assegurado no Tribunal Supremo, por se tratar de um conselheiro de Estado.

"Eu estou bem, não via a hora disso chegar, estou pronto para entrar na sala do julgamento, sentar no banco dos réus e ser julgado por uma causa nobre, a causa de despertar um povo, a causa de lutar por um povo, a causa de lutar pela libertação de um povo, é uma causa nobre e vão-me fazer um grande favor", disse.

Conforme prevê a Constituição moçambicana, enquanto segundo candidato presidencial mais votado, Mondlane assumiu em 01 de setembro último o lugar no Conselho de Estado, que prevê imunidade para os seus membros e que pode ser levantada pelo próprio órgão.

Em outubro, Mondlane disse que quer ver levantada a imunidade como Conselheiro de Estado para ser julgado: "Sim, era possível chegar ao poder pela força. Havia todas as condições para ser feito. Praticamente toda a estrutura operativa policial estava desestruturada, passando a repetição, estava inoperante, e já não conseguiam ter a capacidade repressiva como aconteceu logo após a votação".

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