Março é o mês de sensibilização para o rastreio do cancro colorretal. Qualquer pessoa deve realizá-lo a partir dos 50 anos.
O cancro colorretal é o cancro com maior incidência em termos globais no País e todos os anos surgem entre 10 mil a 11 mil novos casos. O silêncio inicial do cancro colorretal pode ser um verdadeiro inimigo para o diagnóstico precoce desta doença. A medicina recomenda que qualquer pessoa realize um rastreio a partir dos 50 anos.
Ao Correio da Manhã, a médica Anabela Barros, diretora do Serviço de Oncologia da ULS de Coimbra, explicou que são vários os fatores de risco que podem estar associados a esta doença oncológica. Quem tem uma doença inflamatória crônica intestinal, como a doença de Crohn ou a colite ulcerosa, ou quem já teve ou tem familiares diagnosticados - contexto hereditário - deve estar especialmente em alerta. Além destes, os hábitos do dia a dia continuam a ter impacto na saúde. Uma alimentação rica em produtos processados como é o caso das carnes vermelhas, açúcares, cereais e refrigerantes e a ingestão limitada de legumes frescos e fruta pode ser um gatilho para o cancro colorretal assim como, o consumo frequente de álcool e o tabagismo, refere a especialista.
Mas afinal o que é o cancro colorretal?
Segundo Anabela Barros, o cancro colorretal "é um tumor maligno que se desenvolve a nível do cólon - intestino grosso - ou a nível do reto". Os sintomas associados à doença podem variar, ligeiramente, consoante as zonas em que se desenvolve o tumor.
Se for no cólon direito, cuja capacidade de distensão é maior, os sintomas tendem a ser mais silenciosos: "Muitas vezes, são tumores que crescem lentamente e que vão sangrando de forma impercetível para o doente, já que pequenas quantidades de sangue, misturadas com as fezes, passam despercebidas. E quando se dá conta têm uma anemia, cuja causa não é tão imediata. E muitas vezes, não têm grandes alterações dos hábitos intestinais", explica a médica. É possível que a pessoa não chegue a desenvolver alteração dos hábitos intestinais, classicamente obstipação, diarreia ou alternância dos dois.
No caso do tumor se desenvolver no cólon esquerdo, "normalmente as perdas de sangue são mais visíveis uma vez que se trata de sangue vivo e os doentes identificam com mais facilidade". Isto porque, esclarece Anabela Barros, o cólon esquerdo "tem um calibre mais estreito e, naturalmente, os sintomas oclusivos da obstrução do tumor surgem mais cedo". Aqui, o crescimento do tumor pode provocar cólicas, dor e desconforto abdominal, prisão de ventre, diarreia e gases.
A médica indica que estes tumores são provocados por pólipos que "começam por ser benignos, os adenomas, mas depois podem evoluir e dar origem a uma neoplasia maligna". Depois de constituído o cancro, as células malignas podem migrar, em primeiro lugar para os gânglios linfáticos e, posteriormente, para outros órgãos, como o fígado e o pulmão, ou seja para uma doença metastizada.
Importância do rastreio no diagnóstico
Março é o mês de sensibilização para o rastreio do cancro colorretal que, "por definição, é um teste que se faz a doentes assintomáticos", refere a especialista. Com ou sem sintomas, esta pesquisa ao sangue oculto nas fezes, através de uma análise indolor dividida em três amostras recolhidas em dias diferentes, é, em muitos casos, o despiste necessário para um diagnóstico precoce.
Anabela Barros destaca a importância de se fazer o rastreio e de procurar ajuda médica assim que verificar algum sintoma estranho: "A pessoa pode já estar doente e não se aperceber. Às vezes, mesmo quando se tem sangue vivo nas fezes, que é algo frequente nos tumores do colón esquerdo, sobretudo do reto, pensa-se que são hemorroidas. Atribuem a perda de sangue a outras causas e não valorizam. Começa a perda de peso, a falta de apetite, a falta de forças… Às vezes, o doente só vem ao serviço de urgência quando o tumor aperta de tal maneira o intestino, que já não há emissão de fezes ou gases".
Feito o rastreio, que pode ser pedido a nível dos cuidados de saúde primários, é possível identificar a existência de alguma anomalia. Caso se observe sangue nas fezes, é pedido ao utente que faça uma colonoscopia.
Neste exame médico pode encontrar-se um ou mais pólipos que, dependente do caso, podem ser removidos através de uma endoscopia e, posteriormente, enviados para análise que ditará se são benignos ou malignos.
Para tratar o cancro colorretal, a terapêutica a seguir é sempre ajustada à especificidade de cada doente. Anabela Barros adverte para a obrigatoriedade de cada caso ser discutido em reunião multidisciplinar. Os médicos podem optar por operá-lo para remover o tumor ou pelos tratamentos de radioterapia ou quimioterapia. No caso da doença estar metastizada, ou seja, em estadio IV, há opções terapêuticas como a quimioterapia, a imunoterapia, os anticorpos monoclonais, a cirurgia de metáteses, a radioterapia, entre outras.
"Em estadios iniciais, a taxa de cura aos cinco anos é muito levada, na ordem dos 80%", indica a especialista ao Correio da Manhã.
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