A Justiça britânica acusou ontem formalmente o antigo espião do KGB, Andrei Lugovoy, pelo assassinato de Alexander Litvinenko, o crítico do Kremlin envenenado com a substância radioactiva polónio-210 em Londres, no final do ano passado. A Rússia já garantiu que não tenciona extraditar o suspeito.
Após seis meses de investigação, o Gabinete de Acusação da Coroa britânica formalizou ontem as acusações contra Lugovoy e exigiu a sua extradição imediata para ser julgado em Londres pelo que afirma ser um crime “extraordinariamente grave”.
Lugovoy, um antigo agente do KGB (Serviços Secretos Russos) e do seu sucessor FSB, terá envenenado Litvinenko durante uma reunião de trabalho no bar do Hotel Millennium, no centro de Londres, na tarde de 1 de Novembro do ano passado. Horas após este encontro, Litvinenko – também ele um antigo espião do KGB que no final dos anos 90 denunciou a corrupção nos serviços secretos e era um feroz crítico do presidente Vladimir Putin – começou a sentir--se mal, tendo sido internado dois dias depois. Perante a incapacidade dos médicos para determinar do que sofria, foi definhando numa longa agonia e acabou por morrer 20 dias depois, não sem antes ter acusado o Kremlin pelo seu envenenamento. Os médicos confirmaram mais tarde que Litvinenko tinha sido envenenado com a substância radioactiva polónio-210.
Foi precisamente a radioactividade latente da substância que terá conduzido os investigadores até Lugovoy – vestígios de polónio foram encontrados em vários hotéis onde ficou hospedado e aviões em que viajou. Em Dezembro, Lugovoy chegou a ser internado num hospital de Moscovo, segundo a imprensa russa para ser tratado a sintomas de envenenamento por radiações. Lugovoy sempre recusou dizer por que foi internado.
Ontem, o ex-espião negou terminantemente ter assassinado Litvinenko e acusou as autoridades britânicas de procurarem um bode expiatório. “Não matei Litvinenko, não tive nada a ver com a sua morte e posso provar com factos a minha desconfiança em relação às alegadas provas da polícia britânica”, afirmou Lugovoy, acrescentando ainda que não tinha “qualquer motivo” para desejar a morte de Litvinenko.
Um amigo do falecido crítico do Kremlin, Alexander Goldfarb, considerou que Lugovoy é uma “bomba--relógio ambulante”. “Deverá aparecer morto dentro de muito pouco tempo”, afirmou, sugerindo que o Kremlin poderá eliminá-lo para que não fale.
O embaixador russo na capital britânica foi já chamado ao Foreign Office e avisado de que o governo de Londres espera “cooperação total” das autoridades de Moscovo. A Justiça russa já rejeitou, no entanto, o pedido de extradição de Lugovoy, alegando que a Constituição russa não o permite.
Andrei Lugovoy entrou para o KGB no final dos anos 80, tendo sido destacado para o corpo de segurança presidencial. Trabalhou para o milionário Boris Berezovsky e actualmente tem uma empresa de segurança.
23 dias durou a lenta agonia de Alexander Litvinenko. Antes de morrer, escreveu uma carta acusando o Kremlin de o ter envenenado.
137 pessoas, que passaram por Londres em Outubro e Novembro de 2006, apresentaram vestígios de contaminação. Milhares de outras foram sujeitas a exames médicos em vários países.
POLÓNIO-210
É uma substância radioactiva bastante difícil de detectar e muito mais tóxica do que o cianeto. Uma colher de chá basta para matar uma pessoa.
ALERTA
As autoridades sanitárias britânicas isolaram dezenas de locais por onde Litvinenko passou, num alerta que se estendeu a vários países.
HOTÉIS E AVIÕES
Foram encontrados vestígios de polónio em restaurantes e hotéis de Londres, bem como aviões da British Airways.
A Justiça Britânica acusou ontem o ex-agente do KGB Andrei Lugovoy pelo assassinato do espião Alexander Litvninenko, falecido em Londres no final do ano passado após ter sido contaminado com polónio radioactivo.
Datas-Chave no caso
25 Outubro de 2006: Lugovoy terá transportado o veneno num voo da British Airways entre Moscovo e Londres.
1 Novembro. Após uma refeição no restaurante Itsu, em Picadilly, com o italiano mario Scaramella, Litvninenko encontra-se com Lugovoy no bar do Hotel Millenium. A polícia encontrou vestígios de polónio em ambos os locais.
3 Novembro: liyvinenko é internado no hospital após dois dias de vótimos e diarreias violentas – alega que ter sido envenenado e acusa o Kremlin.
23 Novembro: Litvinenko morre – mais tarde, os cientistas confirmam que foi envenenado com polónio-210.
29 Novembro: A British Airways informa que foram detectados vestígios de polónio em vários aviões.
30 Novembro: A Justiça britânica abre um inquérito à morte de Litvinenko
22 Maio de 2007: Andrei Lugovoy é formalmente acusado pela morte do antigo espião
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