França importa quantidades significativas de urânio enriquecido da Rússia, bem como urânio natural do Cazaquistão e do Uzbequistão, que transita por este país, sublinha a ONG.
Quase quatro anos após a invasão da Ucrânia, a Greenpeace denuncia num novo relatório divulgado esta quarta-feira a continuação do comércio nuclear entre a França e a Rússia, um setor poupado pelas sanções internacionais. Nem a França nem a União Europeia (UE) "encerraram as relações comerciais com a Rosatom", a gigante nuclear estatal russa, denuncia a Greenpeace num comunicado.
A França importa quantidades significativas de urânio enriquecido da Rússia, bem como urânio natural do Cazaquistão e do Uzbequistão, que transita por este país, sublinha a ONG. "A França continua a importar urânio enriquecido russo, seja na forma de urânio natural enriquecido ou de urânio reprocessado [urânio reciclado]", representando 18% do total das importações totais do país, de acordo com o estudo da Greenpeace, baseado na análise dos números da alfândega francesa, no final de setembro de 2025. Em 2025, o Cazaquistão e o Uzbequistão, duas ex-repúblicas soviéticas, forneceram metade (49,9%) do urânio natural importado pela França.
De acordo com a Greenpeace, no entanto, "uma grande parte" dessas importações "transita pelo território russo", através da Rosatom, "antes de ser entregue nos portos de Dunquerque ou Roterdão e transportada, nomeadamente, para as fábricas da Orano", o gigante francês do ciclo do urânio.
"O Estado russo continua a manter um forte controlo sobre o setor mineiro do Cazaquistão", sublinha a ONG. Para Pauline Boyer, responsável pela Greenpeace em França, citada no comunicado, o "país alimenta (...) a economia russa e, por extensão, a sua máquina de guerra".
"O Governo francês e a Europa devem sancionar a Rosatom para enviar um sinal forte e pôr fim à impunidade de que goza a primeira empresa do mundo a ter tomado o controlo de uma central nuclear estrangeira pela força [a central ucraniana de Zaporijia]. Neste contexto, o comércio nuclear com a Rosatom é insuportável", sublinha a ativista. A Comissão Europeia não apresentou qualquer proibição das importações de produtos nucleares russos para a UE, assunto que está em discussão entre os 27.
O estudo da Greenpeace atualiza os dados de um relatório publicado em março de 2023, no qual a ONG já denunciava a "dependência" francesa em relação à energia nuclear civil russa.
A França importa todo o urânio necessário para o funcionamento do seu parque nuclear, que assegurou mais de 86% da produção elétrica da elétrica francesa, EDF, no país em 2024, de acordo com o operador. O urânio natural deve ser convertido e depois enriquecido para ser transformado em combustível para centrais nucleares. A França possui uma fábrica de enriquecimento em Tricastin (Drôme), gerida pela Orano.
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