Empresária está acusada de 12 crimes relacionados com a sua gestão na petrolífera estatal de Angola.
Isabel dos Santos associou esta terça-feira o processo por suposta gestão danosa na Sonangol a um "calendário político" do Presidente angolano, João Lourenço, que quer conquistar popularidade para um terceiro mandato e afastar as pessoas que se lhe opõem.
Em entrevista à Rádio Essencial, um dia depois da Lusa divulgar o despacho de acusação do Ministério Público que imputa à empresária angolana 12 crimes relacionados com a sua gestão na petrolífera estatal, Isabel dos Santos considerou tratar-se de uma "manobra de diversão" para cumprir o calendário político do atual chefe de Estado.
"Não há duvida de que João Lourenço quer um terceiro mandato e parte disto é para lhe dar votos de popularidade. Ele está a fazer isto como parte da agenda de um terceiro mandato para conseguir fazer a mudança da Constituição e tirar do caminho qualquer pessoa que não tenha a mesma visão", sublinhou a filha do ex-Presidente José Eduardo dos Santos.
"Eu não acredito que o Estado tenha de ser dono de tudo, eu acredito na liberdade de imprensa, temos um posicionamento político muito diferente", continuou Isabel dos Santos, acusando João Lourenço de quer tirar poder económico a quem possa fazer-lhe frente, apoiar outros candidatos ou outros partidos.
A empresária queixou-se de ter visto o seu dinheiro e ativos congelados há cerca de quatro anos, sem qualquer condenação ou acusação, não podendo sequer pagar a educação dos filhos ou custear despesas de saúde.
"São medidas de muita agressividade, só se faz isso a quem se quer intimidar", frisou, questionando também a gestão das empresas que lhe foram retiradas, nomeadamente a operadora de telecomunicações Unitel, que enfrenta dificuldades.
Isabel dos Santos garantiu que vai responder às acusações que lhe são feitas no prazo de dez dias que lhe é dado para prestar esclarecimentos, que o seu advogado tudo fará para tudo remeter dentro do prazo e afirmou que não se encontra em parte incerta, devido ao pedido enviado pelas autoridades angolanas para a Interpol e que a impede de se deslocar.
"Nas procurações consta o meu endereço, as autoridades angolanas e portuguesas sabem onde eu estou, tenho recebido correios das autoridades portuguesas em minha casa", acrescentou.
A empresária salientou que nunca fez parte de decisões políticas nem integrou as estruturas dirigentes do MPLA (partido do poder) e que não tinha relações próximas com João Lourenço e a sua família, dizendo não saber os motivos da escolha deste candidato para suceder ao seu pai.
Isabel dos Santos afirmou que José Eduardo dos Santos tinha um estilo de gestão "colegial" que incluía as opiniões dos seus auxiliares: "acredito que o MPLA deve ter debatido a candidatura de João Lourenço e ter tomado uma decisão nesse sentido".
A empresária angolana sublinhou que para a sua família esta é "uma fase dura, difícil"
"Nós amamos Angola e não viver em Angola é algo que sofremos muito", destacou Isabel dos Santos.
"Sentimos saudades, sentimos que aquilo que nos está a acontecer não é justo, que nos está a acontecer porque somos filhos de José Eduardo dos Santos", continuou.
Isabel dos Santos e os seus irmãos Welwitscia "Tchizé" dos Santos e José Eduardo Paulino dos Santos "Coreon Du" vivem há vários anos fora de Angola, depois de João Lourenço assumir o poder, sendo a empresária visada em vários processos judiciais a nível internacional.
A filha do antigo Presidente criticou o executivo angolano por se ter comportado "de forma muito desumana" na altura da morte de José Eduardo dos Santos, impondo um funeral de Estado em Luanda, contra a vontade dos filhos mais velhos, e acusou o poder político de não ter sido leal ao pai nem à história de Angola, faltando vozes que se levantassem contra o que estava a acontecer.
Isabel dos Santos é acusada de 12 crimes relativos à sua gestão na Sonangol no período entre julho de 2016 e novembro de 2017.
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