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José da Silva: “Se descubro um artista, gosto de o partilhar com as pessoas”

Através da sua editora ou dos festivais que organiza, o objetivo de José da Silva sempre foi divulgar as músicas que lhe dão prazer.

25 de abril de 2025 às 09:17

O CM falou com José (Djo) da Silva, na cidade da Praia, em Cabo Verde, durante a 14ª edição do Kriol Jazz Festival. Djo é o diretor do festival que tem levado a Cabo Verde grandes nomes da música que se faz no mundo. Foi empresário de Cesária Évora, com ela percorreu França e Europa, até encontrar o sucesso internacional. Hoje pensa dedicar-se mais à sua editora, a Harmonia, a partir do estúdio que montou em sua casa, na ilha de São Vicente.

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José da Silva: “Se descubro um artista, gosto de o partilhar com as pessoas”

-Onde é que nasceu? Onde é que viveu? Como é que começou a aparecer esse gosto pela música?

 “Nasci aqui na Praia e fui rapidamente para o Senegal. Vinte dias depois de ter nascido a minha mãe levou-me para Dakar. Vivi no Senegal até aos treze anos. Com treze anos fui para França, a minha mãe foi para França e levou-me.

Comecei a gostar de música já no Senegal, desde a infância, isso influenciou muito a minha vida futura. A minha mãe adorava música, havia muita música em casa. A coleção de vinil era extraordinária, então ouvia muita música.

E no Senegal, desde criança, ouvi muita música latina, músicas do Senegal, da Costa de Marfim. Nós morávamos num bairro onde havia gente de diferentes países africanos do oeste.

Vivi dentro de todas essas tradições, por isso digo que influenciou o meu futuro, porque depois, no futuro, venho a ser produtor e a trabalhar com vários artistas de vários continentes e de vários países africanos.

Dos treze até aos dezassete anos, estou na escola francesa, estou mais no meio francês. Aos dezassete anos passa-se uma coisa que vai mudar completamente a minha vida. É a chegada de uma prima que a minha mãe recebe de Cabo Verde. Ela chega e fala-me de Cabo Verde e da sua infância, todos os dias.

Isso começa a atrair muita curiosidade da minha parte. Ela tem um namorado, que vem ter com ela, e não quer que a minha mãe saiba, então falou comigo, para a ajudar com o namorado.

Então eu ia passear o namorado durante o tempo em que ela trabalhava. O namorado vem com a direção de associações cabo-verdianas, onde se faziam festas, onde se encontravam os clubes de futebol.

Ao levá-lo a todos esses lugares, descobri a diáspora cabo-verdiana de Paris, que não conhecia. Eu adorava jogar futebol, comecei a jogar com eles e dentro da associação havia muitos músicos que começavam a tocar aos fins de semana, tocatinas, eu pegava na percussão e tocava com eles. De repente toda a gente acha isso formidável e decidimos montar uma banda. É assim que eu aos 20 anos começo a tocar com uma banda, primeiro para fazer animação para a associação, e às tantas, eu mesmo comecei a dizer, epá malta, isso está a ser muito bom, vamos fazer shows maiores. Foi assim que comecei a pisar pé dentro da produção, management, contrato, porque a banda começou a ter procura e fama, mas ninguém da banda tinha tempo para se ocupar disso. Toda a gente trabalhava e quem tinha mais tempo era eu, que era estudante. Podia gerir os contratos, gerir a sala de ensaio e tudo.

Em determinado momento decidi dizer à malta, vamos gravar um disco. E todos diziam - Estás doido, nós não sabemos como gravar um disco - Eu vou-me informar.

Comecei a entrar no meio e a informar-me, visitar estúdios de gravação, entender como é que funcionava, com a economia que nós tínhamos, o que era possível fazer e assim gravámos o primeiro disco da banda que se chamava Sun of Cap.

Gravámos o primeiro disco dos Sun of Cap, uma banda que começou, digamos, a fazer shows em 1983. De 1983 a 1986 gravámos um disco por ano, gravámos três discos.

Andámos pela diáspora toda a fazer shows, só que a malta não era profissional e começou a ter problemas familiares, decidimos fazer uma reunião e nessa reunião decidiu-se terminar com a banda, retomar as tocatinas como antes e não viajar. Isto em1986. Mas durante esses três anos já aprendi muito. Já conheço bastante o meio, digamos, do showbiz cabo-verdiano.

E o Manu Lima, diretor dos Cabo Verde Show, que era a banda mais famosa naquele tempo, chama-me para ser eu o manager da banda.

Aceitei e durante 1986 entro para manager dos Cabo Verde Show. E aí, pronto, também com os Cabo Verde Show fazemos turnês e, pela primeira vez, em Cabo Verde. Consigo montar uma turnê em Cabo Verde de um mês, em várias ilhas, que me vai ajudar a conhecer também todo o meio musical de Cabo Verde, no país.

Por sorte, vamos dizer, em final de 1987, decidi parar com os Cabo Verde Show e vou de férias para Lisboa, com a intenção de conhecer o meio da música cabo-verdiana em Lisboa, que não conhecia bem.

Fui visitar vários lugares e indicaram-me o restaurante do Bana, onde se podia ouvir boa música e comer. Então fui lá e nesse dia estava a cantar uma senhora. Eu fiquei completamente emocionado com a voz da senhora. Perguntei quem era - É uma senhora que não é muito conhecida, chama-se Cesária Évora - decidi esperar que ela terminasse de cantar, para falar com ela. E pronto, ela é simpática, aceitou e falámos. Contou-me, mais ou menos, a vida dela e eu entendi que não tinha…nada, não tinha projeto de produção, não tinha projeto de carreira, nada. Decidi dizer-lhe, olha, eu conheço bem esse meio, posso-te ajudar. E ela disse-me - Eu não tenho nada a perder. Se me levar para França, eu vou - E pronto, assim que finda 1987 regresso a França e mando a passagem para ela, convido-a para o visto e levámos a Cesária para França pela primeira vez. Ela impõe a ida de Luís Morais, então tive de tratar da ida de Luís Morais. Não tinha dinheiro para pagar o hotel, então recebi-os em minha casa, dei a Cesária o quarto dos meus filhos e o Luís Morais dormia no sofá da sala.

Isso ajudou muito a Cesária porque a minha intenção era ajudar. Conhecia bem os restaurantes, os bares na Holanda, na Bélgica, na Suíça. Comecei, todos os fins de semana, a levá-la a um lugar e assim ela ganhava algum dinheiro. Mas nessas andanças comecei a entender a força que ela tinha, que a comunidade gostava muito dela. Então decidimos fazer coisas maiores, festas maiores. Em Paris lembro-me que a primeira festa foi numa sala que levava 500 pessoas e tínhamos 800 pessoas. Ficámos completamente desorientados nesse dia para conseguir receber toda essa gente e assim continuámos a fazer coisas.

 Com o tempo decidimos gravar um disco, porque havia potencial. Eu já conheço os músicos para trabalhar, conheço o estúdio, tenho sistema de distribuição. Então, lancei-me na produção do primeiro disco da Cesária, que se vai chamar La Diva Aux Pieds Nus.

 A história é que eu não tenho muito dinheiro, eu trabalho. Entro em 1981 nos caminhos de ferro franceses, depois de sair da tropa. Trabalho lá como controlador de linha e a sorte é que trabalhamos em três turnos, então tenho muito tempo. Trabalho cedo, de manhã e tenho tudo à tarde ou à noite, isso ajudava-me muito a fazer coisas. Se precisava de mais um dia para fazer turnê, era só falar com os colegas e trocar ou comprar o dia deles. Graças aos caminhos de ferro eu tinha um salário, que me ajudava, mas não tinha mais do que isso, era um salário mínimo. Tinha mulher, tinha filhos, então ser produtor era uma loucura minha. A família emprestou-me dinheiro, a minha mãe, a minha tia, toda a gente me ajudou a fazer o disco. Gravei tudo, e quando chego no fim do estúdio, para a mixagem, ainda não tenho dinheiro suficiente, porque para o primeiro disco eu vou buscar Paulino Vieira para fazer as mornas, vou buscar Manu Lima para fazer as coladeiras e o Luís Morais, três dos grandes produtores cabo-verdianos num disco, com um produtor que ainda não tem meios. Cada um quer fazer o melhor que pode, então custa cada vez mais. Os dias de estúdio vão aumentando cada vez mais e no fim não tinha mais dinheiro. Por ‘sorte’, de tanto dever dinheiro ao banco, sou posto fora. Tiram-me o cartão de crédito, o livro de cheques, já não tenho conta e não tenho dinheiro para terminar o disco.

Só que, com a minha loucura, vou ver outro banco. E, como disse, eu ando sempre com sorte. Encontrei um senhor, diretor desse banco, que, quando eu contei a minha história e que estava à beira de terminar um disco extraordinário, que tinha certeza que se ia vender e tudo, e ele pôs-se a rir. E eu disse: epá, está a rir? - estou a rir porque o que estás a fazer era o meu sonho de jovem. E eu, como jovem, produzi discos e tive também dificuldade. Eu sei pelo que estás a passar, então vou-te ajudar - É esse gajo que me abre uma conta, assino tudo para que todos os meus salários vão para lá e ele empresta-me dinheiro para poder terminar e fabricar o disco.

O disco tem um sucesso enorme na comunidade. Num mês recupero todo o dinheiro e vou devolvendo todos os empréstimos que tinha. Continuámos a trabalhar na comunidade e vamos atacar um segundo disco, onde sempre com aquela ambição, vou buscar o gajo que está na moda na música cabo-verdiana naquele tempo, que é o Ramiro Mendes, vou buscá-lo para fazer o segundo disco. Mas continuamos a fazer o disco pensando na comunidade. Ainda não estou a pensar no internacional, estou a pensar na comunidade e estamos a trabalhar para isso.

Mas no segundo disco começo a dizer, eu vou bater às portas das grandes firmas e ver se não conseguimos entrar aí com a Cesária, e bati várias firmas. Nesse tempo a Sony não existia, chamava-se CBS. Então eu fui à CBS, ouviram e eu me lembro que o gajo me disse - olha, a música é muito boa, a senhora tem uma voz extraordinária - mas quando ele vê a foto da Cesária, diz - não, a senhora, é impossível ter sucesso com ela, não é a imagem que o povo quer agora - e mostrou a imagem de uma menina, loura, jovem - é isso que as pessoas querem - Ok, mas eu com essa senhora vou fazer chorar o mundo. E ele me disse - estás doido? É impossível.

Continuei a tentar em outras firmas e não conseguia nenhuma. Consegui depois só uma distribuição do disco numa firma que se chamava Melody, que era distribuidora de música africana em Paris. E aí começámos a distribuir o disco da Cesária pela primeira vez lá fora.

Continuando com sorte, nessa firma há uma pessoa que é especializada na promoção. E eu vou bater à porta dessa pessoa e dizer, olha, eu tenho esse artista que está a ser distribuído para vocês, eu precisava de ajuda na promoção. O contrato de distribuição não dá direito à promoção. Então eu dizia, ajuda-me e eu pago - Eu trabalho para essa firma, tu não me podes pagar, mas posso-te ajudar - E ele, ouvindo os discos, disse-me - é extraordinário, mas como os discos estão, os jornalistas não vão gostar, porque tem um lado muito eletrónico - Estava na moda o sintetizador e esses discos eram feitos assim. Então ele disse - não penso que isso vá funcionar - e continuei, sempre que lá vou ataco, até que um dia ele disse - olha, eu vou falar com um amigo, que se chama Christian Mousset, tem um festival, a ver se ele põe lá essa senhora e aí vai muito jornalista, muita gente, e vamos ver o que se passa - Em 1990, vamos para esse festival, Musique Métisses, em Angoulême. Nesse festival eu vou tentar duas coisas, para conseguir entender. Vamos fazer o disco como ele é, com os sintetizadores, as guitarras elétricas e vamos fazer a segunda parte mais tocatina, guitarra acústica e cavaquinho. Eu tinha músicos que davam por isso, que era Mindel Band, como chamávamos, que é Tey, Bau, Voginha, que vieram de São Vicente, e no baixo tinha o Ramiro Mendes, e toda essa gente é capaz de tocar música tradicional ou música mais moderna. E quando fizemos aquela música com eletrônicos, não houve vibração nenhuma do público, mas quando passámos para a segunda parte, aí entrou-se num silêncio incrível e as pessoas admiraram a voz. E comecei a ouvir os comentários. Epá, essa que é a música para essa senhora, porque, de facto, a parte acústica dava mais espaço à voz dela e assim a voz dava mais emoção e chegava às pessoas. É o momento em que chega o clique. Eu aí já entendi, ok, estou errado. Tenho de mudar de forma de gravação, tenho de voltar para o tradicional.

Quando saímos de Angoulême marquei logo o estúdio para gravar um disco de música tradicional, uma tocatina. Fomos ao estúdio e eu disse a Cesária, vamos gravar uma tocatina. Vais gravar músicas que costumas cantar nos bares, nos restaurantes em Cabo Verde e não vamos usar nenhum arranjo, vai-se tocar cru, como se faz em Cabo Verde, ok? Levámos bebida, criámos um ambiente no estúdio e em três dias gravámos Mar Azul. E logo fizemos uma cópia, mandámos a esse amigo da promoção, que envia cinco cópias a cinco jornalistas importantes de França.

E o retorno, uma semana depois, foi extraordinário. Com a garantia de uma página. Quando ele disse isso…ok, está bem. Mixámos o disco, lançámos o disco, rapidamente vendemos 50000 exemplares, já temos páginas sobre a Cesária, já entendi o caminho e já decidi lançar a produção, agora de um disco que vai levar mais tempo a fazer com mais produção, que vai ser Miss Perfumada.

Vou escolher o Paulino Vieira para trabalhar isso e vamos levar três meses a fazer esse disco, porque já entendemos. E aí o disco quando sai, em 92, tem um sucesso enorme. Chegámos a vender 600000 discos em França, discos de ouro. Já a firma de distribuição tornou-se pequena para nós, não conseguia dar resposta a tanto pedido.

Aí decidimos ir ver as companhias maiores. E começa uma guerra entre eles, quem que vai assinar a Cesária? Acabámos por fechar o negócio com a BMG, nesse tempo. Depois vai-se chamar Sony, vai ser comprada pela Sony. E aí, pronto, estávamos com grandes turnês internacionais, com vários discos de ouro, a carreira da Cesária está lançada internacionalmente”.

-Também trabalhou com Ildo Lobo, e os Tubarões?

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José da Silva: “Se descubro um artista, gosto de o partilhar com as pessoas”

“Com o sucesso da Cesária, temos mais capacidade financeira e temos muitos pedidos de agentes para gravar. E eu vou começar a fazer o que me dá prazer, da minha infância, tudo o que eu ouvi. Então comecei em 1996 por abrir a produção a outros artistas. Primeiro os cabo-verdianos, vou gravar Tito Paris, Ildo Lobo, com os Tubarões e depois a solo. Vou gravar um montão de discos cabo-verdianos, Luís Morais a Solo, Totinho da Solo, vou gravar e lançar a Lura, Nancy Vieira, muitos artistas cabo-verdianos. Mas, ao mesmo tempo, também cresci no meio da música latina. Então viajo para Cuba e crio um catálogo de música cubana, assinando primeiro a Orquestra Aragón, que era a orquestra da minha infância. Vou comprar os direitos do Bonga, o Angola 72 e o Angola 74, porque eram os discos preferidos da minha mãe, que se ouvia todos os domingos em casa. Esse som dá-me prazer, fazer coisas que eu gosto, gravar artistas da costa da África, dos países que eu gostava, da Guiné-Bissau, gravei N’kassa Cobra. Fui para Moçambique, lancei um grupo que se chamava Kapa Dech, fiz muita coisa. Primeiro a meu prazer e depois a prazer dos outros”.

-Começou também na organização de festivais. Como é que isso apareceu? Quais foram os primeiros festivais que conseguiu? Foi o Baía das Gatas?

“Sim, o Baía das Gatas. Começo a vir muitas vezes a Cabo Verde, conheço bem Cabo Verde. Entra um presidente para a Câmara de São Vicente que eu conhecia, Kuchim, que vem a propor-me produzir o Festival da Baía.

Então vou produzir durante seis anos o Festival da Baía, com a ideia de internacionalizar o festival. Vou criar, nos três dias do festival, pela primeira vez, um dia dedicado à música urbana, não havia música urbana nesses festivais. Eu abri isso, o dia de domingo, e vimos uma moldura de jovens chegar nesse dia, porque pela primeira vez iam estar artistas deles no festival. E aquilo tem funcionado até agora, o festival continua a ter música urbana, porque é um público que gosta e que aos domingos toma conta do festival.

Depois da Baía, vou fazer o festival do Sal, dois ou três anos, vou fazer também o Festival da Gambôa, durante dois anos. Em 2009, vi que todos os festivais que havia em Cabo Verde, são do mesmo modo. Todos têm o mesmo tipo de programação. Eu via que havia falta, em Cabo Verde, de música, vamos dizer, de qualidade. Tocada por músicos de alto nível, como músicos jazzistas. E aí decidi criar um festival de música para ouvir, porque em Cabo Verde só fazíamos festival para dançar e não se pensava na qualidade musical. Criei o Kriol Jazz Festival para esse tipo de público, que eu achava estar a ser esquecido em casa. Nos primeiros dois anos as pessoas não entendiam bem qual era a filosofia do festival, mas depois de três anos, começou a funcionar e as pessoas gostaram. Até o dia de hoje, estamos com 14 anos de festival, as pessoas gostam.

Temos um público bem específico que vem para este festival. Penso que o festival mudou a visão também dos músicos cabo-verdianos. Libertou muitos músicos. Desse tipo de festival em que podiam tocar, mas que não têm espaço nos outros festivais. Aqui eles têm espaço. Eles trabalham muito para ganhar a programação neste festival”.

-Com este festival, os cabo-verdianos tiveram acesso a bandas internacionais de grande qualidade e isso satisfaz o público, como é que vê isso acontecer em Cabo Verde? Como é que se sente ao conseguir estas trazer músicas para Cabo Verde?

“Sim, eu sou muito orgulhoso disso. Muitas dessas gentes, às vezes, param-me na rua para agradecer, porque muitos nunca sonharam que um dia iam ver artistas que adoram, aqui em Cabo Verde. Trazemos grandes artistas para aqui, ainda hoje na praça, uma senhora me abraçou e dizer obrigado, obrigado, eu nunca pensei ver esta artista aqui no meu país e às vezes passa a noite a ver o concerto dela, é isso que acho que valoriza muito o festival e que é o meu prazer também, é isso. Eu gosto de partilhar o meu prazer, se eu ando em qualquer lugar e descubro um artista, gosto de partilhar esse artista com as pessoas de quem gosto e com o país, se for possível”.

-Atlantic Music Expo. Como é que surgiu a ideia para conseguir, mais que um festival, um mercado que traz também muita gente ao centro do Atlântico?

“O Atlantic Music Expo vem do Kriol Jazz, porque no início nós fazíamos encontros profissional dentro do Kriol Jazz, mas a um nível mais pequeno. Eram entre 10 e 15 profissionais que nós convidávamos todos os anos e fazíamos encontros profissionais. E quando o Mário Lúcio entra como Ministro, diz-me - porque não transformar isso num mercado? - Bom, no início eu achei aquilo uma ambição demasiada, quer dizer, será que temos força para aguentar um mercado, e disse-lhe, vamos fazer uma primeira edição, não vamos chamar mercado, vamos continuar a chamar encontro profissional, só que vamos convidar mais gente. Vamos convidar diretores de outros mercados conhecidos e vamos ver se eles querem ser parceiros ou o que pensam das nossas possibilidades aqui. Trouxemos a Womex, o Babel Med, o mercado do Brasil, e toda essa gente gostou muito do lugar, gostou muito da ideia e disseram - vocês têm pés para andar - A Womex propôs ser o nosso parceiro. A partir daí já tínhamos a garantia de um parceiro que tem know how, que tem conhecimento, que nos vai ajudar a trazer pessoas. Então aí, decidimos lançar o Atlantic Music Expo”.

-Durante quantos anos é que esteve à frente do Atlantic Music Expo?  Acabou por deixar a direção, mas ficou a marca, ficou o festival, deixou o património?

“Sim. Eu produzi durante seis anos, penso que seis anos. Deixei porque houve um momento, na mudança de governo, entrou um novo ministro, que não queria guardar o mercado. Então, ele se focou contra mim, e eu, para não fazer o mercado perder, decidi sair. Como o foco era a minha pessoa, sair e deixar uma associação de produtores gerir o mercado. Então, criamos uma associação de produtores. Essa associação de produtores nomeou Augusto Veiga como diretor e eu saí para me ocupar só do Kriol Jazz.

A Associação fez um contrato com o governo através do Ministério do Turismo e assim o mercado deixou de ser apoiado pelo Ministério da Cultura passou a ser apoiado pelo Ministério do Turismo”.

Bom, e agora? O que é que lhe apetece fazer?

 “Agora penso que já dei volta de muita coisa. Francamente, estou atualmente numa posição de dizer, pronto, vamos baixar um pouco a pressão, fazer menos coisas. Vamos procurar, a ideia é, nos meses que vêm, procurar um novo diretor para o festival. Claro que a minha firma continua a estar e a apoiar por trás, talvez mais a buscar soluções financeiras para o festival, mas não a produzir o festival. Deixar outra pessoa produzir o festival. Se for um jovem ainda melhor, porque damos uma nova juventude a esse festival. Essa é a ideia que eu tenho, o que eu quero fazer. O ‘label’ em França, já passou para o meu parceiro que é a Sony, desde há 30 anos, passei-lhes a gestão da firma. Para libertar a minha filha também, que já voltou a ser artista ela mesma, então não tenho tempo de gerir a firma. Isso vai nos tirar muita coisa e vou-me concentrar mais na Harmonia. Isso já me tira muito peso de trabalho, para ir baixando tranquilamente, porque a idade vai chegando”.

-Esteve na Costa do Marfim, com a Sony.

O que é que se passou lá? Foi montar uma nova estrutura?

“Aquilo foi um desafio interessante para mim, porque em toda a África só há um país com Major Companys, que é a África do Sul.

Na África do Sul, tens Sony, tens Universal. Em toda a África do Oeste não há. Então, quando a Sony me pediu para montar Sony-Costa do Marfim, aceitei porque era um grande desafio. Montar uma multinacional na costa da África, com tudo, aparelhagem. Era um desafio muito interessante.

Deram-me carta branca e um budget importante para fazer aquilo. E pronto, aceitei e desembarquei em Abidjan com a minha mala, sozinho. Montei uma equipa, construímos um estúdio de gravação, um estúdio de ensaio, um local de residência, formidável. Até aos dias de hoje está a funcionar. Esse desafio levou-me para lá, quatro anos, depois de estar ganho preferi deixar, para agora eles desenvolverem com outros promotores e diretores”.

-O que é que se passou, na pandemia, com os músicos em Cabo Verde, que você bem conhece? Desmontou o estúdio em Paris, trouxe-o para o Mindelo?

“A pandemia para os músicos cabo-verdianos foi extremamente difícil, porque estava tudo fechado, imagina, não tinham onde ganhar um tostão e em Cabo Verde os músicos não eram profissionalizados, portanto, nenhuma ajuda direcionada para eles. Alguns viveram de pequenos shows digitais, online, mas foi extremamente difícil. Eu tive de suportar meus artistas durante dois anos e meio, praticamente. Não foi fácil.

De Abidjan, no último ano da pandemia, eu passei para aqui. Passei a trabalhar de Cabo Verde. E estando aqui, eu me senti tão bem que disse, olha, eu daqui não vou.

 Decidi desmontar o estúdio em Paris, mandar para Cabo Verde, para São Vicente. A Harmonia estava aqui na Praia, por acaso, neste mesmo escritório. Tinha uma loja aqui ao lado. Decidimos fechar tudo isso, porque nada funcionava. Tive de despedir todos os que aqui trabalhavam. E em São Vicente montei algo de novo, outra vez. Fui buscar alguns jovens, que durante a pandemia eu formava, até chegar uma nova equipa e começámos a trabalhar outra vez o catálogo de harmonia. Ensinámos jovens artistas e é o que estamos a fazer agora, a desenvolver isso”.

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