Obrigado a viver na periferia da "cidade grande", a vida é difícil.
Mariano fugiu de Muidumbe em 2019, durante ataques terroristas, mas aos 50 anos de independência de Moçambique não se sente independente, face ao drama de milhares de deslocados, famílias inteiras que continuam a abandonar as suas terras.
"Não me sinto independente. Se assim estivesse, eu estaria agora na minha terra a produzir (...) Mas fui obrigado a deixar tudo para trás", lamenta Mariano Momba, 68 anos, sentado, à sombra de uma árvore em Chuiba, periferia de Pemba, capital provincial de Cabo Delgado, a cerca de 10 quilómetros do centro da cidade.
Mariano Momba é uma entre as milhares de pessoas que foram obrigadas a fugir aos ataque armados de grupos terroristas em distritos de Cabo Delgado, incursões que, desde 2017, têm assolado, sobretudo, o norte daquela província moçambicana rica em gás.
Com a sua esposa ao lado, na longa caminhada até conseguir transporte para longe de Muidumbe, a mais de 250 quilómetros de Pemba, Mariano Momba andou por dois dias, descalço. Foram mais de 40 quilómetros de Muidumbe até Mueda, um dos poucos distritos que desde o início deste conflito (2017) nunca sofreu uma incursão direta.
"Lembro-me como se fosse ontem (...) Tive que andar de noite para evitar contacto com pessoas porque todos me pareciam estranhos (...) Cheguei com pernas inchadas e o mundo para mim desabou", acrescentou, em conversa com a Lusa.
Em Chitunda, no distrito de Muidumbe, Momba não deixou apenas o seu campo agrícola, com mais de cinco hectares de produção, mas ficou também a história de uma infância vivida na quietude típica do meio rural moçambicano.
Já em Pemba, a família de Momba teve apoio de uma pessoa próxima, que cedeu um espaço para que pudessem temporariamente habitar, mas o ciclone Chido, que assolou a cidade em 15 de dezembro de 2024, voltou a levar a desgraça à vida deste moçambicano, com a destruição da cabana, obrigando a família a pedir refúgio em casa do primo.
Atualmente, obrigado a viver na periferia da "cidade grande", a vida é difícil, sobretudo quando não se tem qualquer formação, com sete filhos e seis netos para alimentar.
"Não se pode falar da independência enquanto uns não sabem o que vão comer amanhã", observou o camponês.
Chitunda, um posto administrativo do distrito de Muidumbe, ao longo da Estrada Nacional EN380, uma das poucas asfaltadas da região, está quase que abandonado, após sofrer recorrentes ataques, nos últimos anos, de rebeldes que aterrorizam Cabo Delgado.
Em 14 de junho, pelo menos 18 supostos terroristas foram abatidos pela força local em Muidumbe, num ataque a uma outra aldeia local, avançou fonte oficial.
"No ataque ocorrido no dia 07 de junho de 2025, na aldeia Magaia, estes tiveram o seu revés nas suas incursões, pois receberam uma resposta bem forte da força local que culminou com o abate de 18 membros desse grupo", disse o administrador do distrito de Muidumbe, João Bosco.
Desde outubro de 2017, a província de Cabo Delgado, rica em gás, enfrenta uma rebelião armada com ataques reivindicados por movimentos associados ao grupo extremista Estado Islâmico, que chegaram a provocar mais de um milhão de deslocados.
Só em 2024, pelo menos 349 pessoas morreram em ataques de grupos extremistas islâmicos na província, um aumento de 36% face ao ano anterior, segundo dados divulgados recentemente pelo Centro de Estudos Estratégicos de África, uma instituição académica do Departamento de Defesa do Governo norte-americano que analisa conflitos em África.
Coincidentemente, a insurgência armada assumida como um dos principais desafios de segurança pelas autoridades ocorre na mesma província onde a luta de libertação colonial começou, em 25 de setembro de 1964, com ataque da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) a uma posição das forças coloniais portuguesas no Posto Administrativo de Chai, distrito de Macomia, província de Cabo Delgado.
Moçambique celebra em 25 de junho 50 anos de independência.
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