A ordem para os ataques de uma facção criminosa contra outra no passado fim-de-semana, os quais transformaram a zona Norte do Rio de Janeiro num cenário de guerra, partiu de dentro de duas prisões consideradas as mais seguras do Brasil. Fontes da polícia carioca afirmaram que a ordem para os traficantes do Morro de São João invadirem o Morro dos Macacos, controlado por uma facção rival, partiu da Penitenciária de Segurança Máxima de Catanduvas, no estado do Paraná, e teve o apoio de presos da Penitenciária de Alta Segurança de Campo Grande, no estado do Mato Grosso do Sul. Nos ataques morreram 19 pessoas e foi abatido um helicóptero da polícia.
Segundo a polícia, a ordem para atacarem o Morro dos Macacos e tomarem os pontos de venda de droga à facção rival foi dada aos traficantes do Morro de São João por Marcinho VP, líder histórico da facção criminosa Comando Vermelho, preso em Catanduvas. Luís Fernando da Costa, conhecido por Fernandinho Beira-Mar, preso em Campo Grande, encarregou-se de armar homens seus para reforçar o poder de fogo dos homens do seu aliado Marcinho VP.
Mais de cem criminosos armados participaram na invasão ao Morro dos Macacos e dezenas de homens ficaram responsáveis por desencadear ataques a autocarros de passageiros noutras favelas da cidade, para desviarem a atenção da polícia.
Os traficantes presos queriam controlar a Favela dos Macacos para ter controlo de uma zona com acesso fácil a toda a área metropolitana por ficar perto da auto-estrada Grajaú-Jacarepaguá, do túnel Rebouças e da Linha Amarela, que liga ao aeroporto.
HABITANTES REVOLTADOS COM A POLÍCIA
Os habitantes do Morro dos Macacos, que ficaram no meio do fogo cruzado entre quadrilhas de traficantes e entre estas e a polícia, estão revoltados com as forças da ordem. Por um lado, porque o reforço policial demorou muito a chegar e, por outro, porque três jovens inocentes, segundo a família, assassinados pelos traficantes foram tratados como criminosos.
Com efeito, a polícia recusou-se a fazer perícia e a registar os crimes e incluiu os jovens, abatidos quando regressavam de uma festa, na lista de criminosos.
APONTAMENTOS
MÍSSIL
O helicóptero abatido – matando dois polícias – pode ter sido atingido por um míssil lançado por um traficante.
CEM MILHÕES
A polícia do Rio poderá receber cem milhões de reais (39 milhões de euros) do governo para reforçar tropas e meios.
SEM ORELHAS
Vários cadáveres de vítimas mortas pelos criminosos não tinham orelhas.
"VIOLÊNCIA É UM MOTIVO DE PREOCUPAÇÃO": Celso Marcos Vieira de Souza Embaixador do Brasil sobre a violência no Rio de Janeiro e os J. Olímpicos de 2016
Correio da Manhã –Numa altura em que o Brasil se prepara para receber os Jogos Olímpicos, estes incidentes afectam a credibilidade e a imagem do país...
– A violência afecta a credibilidade de qualquer país, não é só a do Brasil. Outros países que vão sediar eventos mundiais importantes têm problemas graves de violência. Não é um fenómeno único. Agora não vou dizer que não afecta a imagem do Rio, claro que afecta, é um motivo de preocupação. No Rio de Janeiro, a política do governo estadual tem sido a de combater os pontos de distribuição de drogas. Houve operações conduzidas com muito êxito, como a que decorreu na região de Dona Marta, e essas operações vão prosseguir.
– O que é que o Brasil pode fazer para garantir a segurança das pessoas que querem ir ao Rio ver os Jogos?
– Não tenho as estatísticas presentes, mas não me consta que tenha havido alguma diminuição do turismo no Rio de Janeiro em função da violência. Acho, inclusive, que apesar de acções como a do fim-de-semana a situação no Rio de Janeiro até tem melhorado. Em sete anos muita coisa pode e deverá ser feita. Há um aumento muito grande do crime relacionado com o tráfico de droga, por isso a polícia do Estado do Rio de Janeiro tem precisamente procurado atingir os pontos de distribuição de drogas. Eu acho que é esse o caminho a seguir.
– Podemos esperar um grande reforço policial por essa altura. Não teme que isso retire um bocadinho o espírito dos Jogos?
– Estamos a fazer especulações com uma coisa que vai acontecer daqui a sete anos. Se recuarmos um pouco no tempo, quem é que imaginaria que na Alemanha teria havido aquela brutal violência contra a delegação de Israel? Daqui a sete anos a situação no Rio estará melhor, com certeza, até porque, quando a cidade se candidatou a organizar os Jogos, sabia que teria de enfrentar a violência.
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