MPLA em quebra de popularidade e desagregado pelas lutas entre fações "lourencistas" e "eduardistas".
A sair de um 2020 penoso, o presidente angolano João Lourenço não terá tarefa fácil em 2021, ano que será marcado pela pré-campanha eleitoral com um MPLA em quebra de popularidade e desagregado pelas lutas entre fações "lourencistas" e "eduardistas".
Com a economia a ressentir-se e a agravar condições de vida já antes precárias, o partido do poder em Angola há quatro décadas vai ter de provar que ainda consegue conquistar o povo e devolver a esperança aos angolanos para ganhar as eleições gerais em 2022.
Em declarações à Lusa, o presidente do Sindicato dos Jornalistas, Teixeira Cândido, diz que o MPLA vai ter de encontrar soluções e oferecer mais do que o combate à corrupção para convencer os cidadãos a reeleger o partido e o seu presidente em 2022.
Ainda que o combate à corrupção não tenha precedentes -- nunca se viu tantos dirigentes, tantos funcionários do Estado a enfrentar os tribunais --, diz Teixeira Cândido, este processo tem um impacto pouco imediato sobre o cidadão angolano "que está permanentemente a fazer contas a vida, a ter de escolher entre comer ou tratar-se ou educar os filhos".
"O custo de vida está tão alto que as questões básicas são primeira, segunda, terceira e quarta prioridade, assinala o jornalista, sublinhando que o governo e o presidente João Lourenço vão ter de fazer "um milagre" para contornar esta situação.
"O maior desafio é saber qual vai ser este milagre para convencer as pessoas e reduzir as dificuldades que enfrentam hoje e melhorar a sua condição de vida", numa altura em que os preços do petróleo, o principal produto de exportação angolano, continuam baixos e esta é praticamente a única via para obter divisas necessárias para comprar bens, dos alimentos às máquinas.
Teixeira Cândido defende, por isso, "um corte radical com as despesas inúteis".
"Para um país que usa metade do orçamento para pagar divida publica, entendo que o fundamental deve ser a qualidade das despesas para dar algum desafogo para que o Estado se concentre nos setores estruturantes e chaves", comentou.
O responsável reconhece que o maior problema é gastar com qualidade, salientando que a administração direta e indireta do Estado continua a gastar "rios de dinheiro" em aquisições desnecessárias, como veículos "para pessoas que são nomeadas quando deviam aproveitar os já existentes" ou computadores que "ano após anos" aparecem inscritos no orçamento da mesma unidade.
Apontou a construção da nova sede da Comissão Nacional Eleitoral, obra orçada em 37 milhões de euros, como exemplo de despesa que não é prioritária.
"Face ao facto de o Estado ter recuperado vários edifícios [no âmbito da recuperação de ativos por via judicial] acho que não há necessidade", vincou, notando que o Estado todos os anos tem um orçamento deficitário e é obrigado a endividar-se.
Questionado sobre as tensões com os jovens e o problema do desemprego, Teixeira Cândido admite que não é expectável que o governo encontre soluções em apenas um ano.
"A função pública está repleta, o Estado já não tem grandes condições de continuar a empregar, a maior parte dos nossos empresários praticamente não tem capital, os bancos não têm capacidade para ajudar a economia, o investimento estrangeiro é a conta-gotas porque quem quer investir em Angola enfrenta várias dificuldades a nível de infra estruturas", apontou dando como exemplo o mau estado das estradas.
Em ano pré-eleitoral, e depois dos grupos de media privados TV Zimbo, jornal O Pais, Radio Mais, TV Palanca terem sido entregues aos serviços de recuperação de ativos e passado para a esfera do Estado, Teixeira Cândido antevê também tensões na comunicação social.
"É um período de pré-campanha e o principal palco vai ser a media", destacou, afirmando que a media pública vai estar sob escrutínio da oposição e da sociedade civil.
Teixeira Cândido defendeu que os meios públicos "devem estar ao serviço de todos, mas o certo é que não tem tratado todos por igual, não tem sido assim".
"Provavelmente a media vai estar na agenda dos grandes debates do próximo ano", prevê.
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