Revelação surpreendente de Bento XVI no livro ontem apresentado. “Crimes” do fundador dos Legionários de Cristo só há dez anos foram conhecidos pelo Vaticano.
Um falso profeta, que levou uma vida imoral" e que, "de alguma maneira, estava muito bem protegido." É desta forma que Bento XVI se refere ao padre Marcial Maciel Degollado no livro ‘Luz do Mundo - o Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos’, ontem apresentado no Vaticano.
Na mesma obra (uma longa entrevista a Bento XVI feita pelo jornalista alemão Peter Seewald) em que admitiu o uso do preservativo "como meio de evitar a transmissão da sida" e a possibilidade de renunciar ao pontificado, o Papa assumiu que o fundador dos Legionários de Cristo desfrutou durante anos da protecção de "altas instâncias" e que elas "encobriram os seus actos sujos e reprováveis".
O famoso padre mexicano, que fundou uma das maiores congregações católicas do século passado, levou durante décadas uma vida dupla, de que faziam parte abusos sexuais a seminaristas, filhos ilegítimos e tentativa de suborno.
"Só no ano 2000 começámos a ter pontos de referência concretos", disse Bento XVI, lamentando que os abusos sexuais do padre Marcial Degollado tenham chegado "demasiado tarde" ao conhecimento do Vaticano.
VATICANO ALEGA QUE LEGIONÁRIOS CALARAM ABUSOS
O presidente do Conselho Pontifício para a Nova Evangelização (CPNE), D. Rino Fisichella, que ontem apresentou, no Vaticano, o livro ‘Luz do Mundo - o Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos’, esclareceu que quando o Papa disse que a Igreja escondeu a vida dupla do padre Marcial, estava a referir-se aos Legionários de Cristo. "Não foi o Vaticano nem qualquer diocese quem ocultou os referidos escândalos. Eles foram encobertos pela organização que o sacerdote liderava", disse D. Rino Fisichella. O livro, de 200 páginas, organizado em 18 capítulos, contém as repostas do Papa a 90 perguntas formuladas pelo autor. Na secção "Os papas não caem do Céu", Bento XVI afirma, por exemplo, que, em Abril de 2005, estava "seguríssimo" de que seria ele o eleito. O livro chega a Portugal na próxima semana.
"ESTA ENTREVISTA REVELA UM PAPA CORAJOSO E TRANSPARENTE"
O porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), padre Manuel Morujão, afirmou ao CM que a "entrevista, publicada em livro, revela um Papa corajoso e transparente".
"Apenas conhecemos extractos, mas, do que nos tem chegado, verificamos que, com grande transparência, o Santo Padre fala de temas candentes com coragem e até ousa abordar a possibilidade da sua própria resignação", explica o porta--voz da CEP.
Sublinhando que "este Papa tem-nos habituado a grandes surpresas", o padre Manuel Morujão admite que não esperava as declarações de Bento XVI sobre o uso do preservativo. "Confesso que fiquei um pouco surpreendido, mas foi algo de muito positivo", esclarece.
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