Embora tenha desistido de pedir a anulação das eleições, Bolsonaro afirmou que irá solicitar à justiça a invalidação da candidatura de Lula por alegado "abuso de poder" económico e político.
O partido do candidato conservador Flavio Bolsonaro reconheceu esta segunda-feira a surpreendente reeleição do Presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva, apesar do próprio Bolsonaro não ter reconhecido formalmente a derrota.
Embora tenha desistido de pedir a anulação das eleições, Bolsonaro afirmou que irá solicitar à justiça a invalidação da candidatura de Lula por alegado "abuso de poder" económico e político.
Ainda assim, o Partido Liberal anunciou em comunicado que "reconhece o resultado das eleições presidenciais proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral", pedindo, no entanto, "esclarecimentos" sobre o impacto dos apoios sociais aprovados por Lula durante a campanha.
Lula da Silva, que completa esta terça-feira 81 anos, conseguiu, contra todas as previsões, recuperar a desvantagem da primeira volta e conquistar um inédito quarto mandato. O maior país da América Latina mantém-se à esquerda numa região que tende maioritariamente para a direita.
O Presidente candidato venceu por quatro pontos percentuais o filho do antigo presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro, aliado do Presidente norte-americano, Donald Trump, depois de conseguir mobilizar a esquerda nas ruas e nas redes sociais.
Já na noite de domingo, Flávio Bolsonaro tinha denunciado uma alegada "fraude" e exigido a anulação das eleições, cujo horário foi prolongado por duas horas a pedido de Lula, que afirmara que alguns eleitores tinham sido impedidos de chegar às urnas.
Contudo, o candidato da direita também apresentou um pedido semelhante devido às fortes chuvas em duas regiões do país.
Jair Bolsonaro, pai de Flávio, nunca reconheceu a derrota frente a Lula na segunda volta das eleições de 2022, tendo sido condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
O presidente do tribunal eleitoral, Kassio Nunes Marques, magistrado nomeado por Jair Bolsonaro, contrariou as alegações do senador conservador, elogiando umas "eleições bem-sucedidas" e assegurando que o prolongamento do período de votação não teve qualquer impacto no resultado final.
Flávio Bolsonaro anunciou também na segunda-feira ter sido intimado a entregar o passaporte às autoridades e que um juiz o proibiu de abandonar o país.
O parlamentar, de 45 anos, está a ser investigado por suspeitas de corrupção relacionadas com o financiamento de um filme dedicado ao pai.
Para o politólogo Oliver Stuenkel, a diferença de votos entre os dois candidatos "foi bastante significativa", pelo que será "muito difícil" para Flávio Bolsonaro "convencer os eleitores de que o resultado se deveu a fraude eleitoral".
A União Europeia, França, Espanha, mas também Rússia, China e Índia enviaram felicitações ao Presidente brasileiro.
"A democracia e o multilateralismo venceram no Brasil", congratulou-se a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, referindo-se à vitória do "amigo" Lula.
O Presidente francês, Emmanuel Macron, apelou a que se faça "viver a amizade entre os dois países, ao serviço de um mundo mais justo", perante os "grandes desafios do nosso tempo".
Lula recebeu igualmente calorosas felicitações dos governos de esquerda da América Latina, incluindo da mexicana Claudia Sheinbaum, do cubano Miguel Díaz-Canel e do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Venezuela, mas também de países governados pela direita, como o Chile, Peru e Equador, que garantiram querer continuar a trabalhar em objetivos comuns com o gigante regional .
Em contraciclo com os líderes das principais potências mundiais, Trump classificou a vitória de Lula como "lamentável".
"Sinceramente, parecia mais uma eleição viciada [...] foi tudo tão corrupto, tão lamentável", declarou a jornalistas em Washington.
Em reação à inédita vitória do antigo líder sindical, os mercados brasileiros caíram quase 17% na abertura de segunda-feira e encerraram com perdas próximas dos 14%. No mercado cambial, o dólar valorizou-se fortemente face ao real.
Lula prometeu aumentar a despesa pública destinada a programas sociais numa altura em que a dívida pública continua a crescer.
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