Barra Cofina

Correio da Manhã

Mundo
6

Pelo menos 51 crianças raptadas num ano em Moçambique, avança ONG

Num ataque, a 9 de junho de 2020, dez meninas foram raptadas enquanto tiravam água de um poço.
Lusa 9 de Junho de 2021 às 08:32
Crianças em Moçambique - Foto ilustrativa
Crianças em Moçambique - Foto ilustrativa FOTO: Getty Images
Pelo menos 51 crianças foram raptadas por grupos rebeldes desde maio de 2020 em Cabo Delgado, norte de Moçambique, anunciou esta quarta-feira a organização não-governamental (ONG) internacional Save the Children (Salvem as Crianças, em inglês).

"Pelo menos 51 crianças, a maioria raparigas, foram raptadas por grupos armados insurgentes na província nos últimos 12 meses", sendo que "os números refletem apenas os casos reportados, estimando-se que o balanço real de raptos de crianças seja muito superior", lê-se em comunicado.

A análise baseia-se em dados recolhidos pelo projeto de registo de conflitos ACLED e segundo a ONG "mostra o rapto de crianças como uma nova e alarmante tática dos grupos armados envolvidos no conflito". 

"Antes de 2020, não havia registo de assassínios ou raptos de crianças", sublinha.

Chance Briggs, diretor da Save the Children em Moçambique, diz que "raptar uma criança constitui uma das seis violações graves em tempos de conflito, como definido pelas Nações Unidas" e "pode ser um primeiro passo para [a existência] de crimes de guerra - a par do recrutamento forçada de crianças ou a violência sexual contra menores".

O comunicado relata detalhes de alguns raptos, como num ataque a 07 de janeiro em que 21 pessoas, incluindo seis crianças, foram raptadas, num incidente em que pelo menos sete pescadores foram decapitados. 

Noutro ataque a 09 de junho de 2020, 10 raparigas foram raptadas enquanto tiravam água de um poço.

Os sinais de recrutamento de menores para formação de crianças-soldado pelos grupos rebeldes foram relatados à Lusa em abril pelo padre Latifo Fonseca.

"Algumas pessoas que foram aos acampamentos de insurgentes encontraram crianças", referiu na altura o missionário e investigador do Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE) moçambicano, de acordo com relatos que ouviu de quem já foi raptado pelos grupos armados e conseguiu fugir.

As descrições alinham-se com outras de mães cujos filhos desapareceram durante a investida de insurgentes contra as aldeias de Cabo Delgado.

João Feijó, investigador do Observatório do Mundo Rural (OMR), referiu numa outra entrevista à Lusa, também há dois meses, que o destino de raparigas selecionadas pelos rebeldes podem ser redes de tráfico de mulheres que se estendem até à Europa e Golfo Pérsico.

Grupos armados aterrorizam a província desde 2017, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo 'jihadista' Estado Islâmico, numa onda de violência que já provocou mais de 2.800 mortes segundo o projeto de registo de conflitos ACLED e 714.000 deslocados de acordo com o Governo moçambicano.

Um ataque a Palma, junto ao projeto de gás em construção, a 24 de março provocou dezenas de mortos e feridos, sem balanço oficial anunciado.

As autoridades moçambicanas recuperaram o controlo da vila, mas os tiroteios têm continuado e o ataque levou a petrolífera Total a abandonar o recinto do empreendimento que tinha início de produção previsto para 2024 e no qual estão ancoradas muitas das expectativas de crescimento económico de Moçambique na próxima década.

Ver comentários