Milhares de habitantes do Complexo do Alemão, na zona Norte do Rio de Janeiro, estavam ontem à noite entrincheirados nas suas casas, tentando proteger-se de uma batalha que podia começar a qualquer momento se a polícia e o exército cumprissem a ameaça de invadir a gigantesca favela, cercada desde sexta-feira.
O prazo dado pelo chefe da polícia, coronel Mário Sérgio Duarte, para os traficantes se renderem expirou ao cair da noite e, à hora do fecho desta edição, os militares preparavam-se para avançar.
O coronel Sérgio Duarte assegurou que esta seria a última oportunidade para os traficantes se renderem. À "população de bem", o coronel pediu que se trancasse em casa e se protegesse da melhor forma possível por causa do fogo cruzado.
Ao início da noite, alguns criminosos começaram a render-se, descendo o morro com as armas erguidas sobre a cabeça, mas a grande maioria dos cerca de 500 traficantes cercados, incluindo vários líderes da facção, continuava a resistir. Um dos que se renderam foi Diego Raimundo dos Santos, o braço-direito do líder do tráfico no Complexo do Alemão. Entretanto, José Júnior, coordenador da ONG AfroReggae, foi chamado pelos traficantes para mediar as negociações com a polícia.
O dia de ontem foi o mais tranquilo desde o início dos ataques, há uma semana, havendo apenas registo de cinco viaturas incendiadas. Noutro incidente, um menino de 12 anos foi baleado nas pernas por traficantes por se recusar a ir comprar gasolina para fazer cocktails Molotov. Desde domingo, já morreram 36 pessoas.
DISCURSO DIRECTO
"NADA SE RESOLVE COM TANQUES", Mónica Marques, Escritora portuguesa residente no Rio de Janeiro
Correio da Manhã - Teve de alterar as suas rotinas por causa dos confrontos?
Mónica Marques - Não. Esta é, de facto, uma situação complicada, mas é uma situação que acontece todos os anos. Não é nada de desconhecido.
- Mesmo com este clima de guerra urbana dos últimos dias?
- O Rio é uma cidade que vive em permanente guerra urbana. As pessoas não têm noção disso.
- Não lhe faz confusão ver os tanques nas ruas?
- Obviamente, faz confusão. Não é algo normal. Mas as pessoas habituam-se.
- Estas acções não poderiam ser evitadas com outro tipo de políticas?
- Claro que sim. O que tem de ser feito no Rio de Janeiro, e em todo o Brasil, é um investimento massivo em educação e saúde. Nada disto se resolve com tanques.
JUSTIÇA PROCURA CÚMPLICES
A justiça do Rio de Janeiro decretou a prisão de vários advogados, das mulheres e de outros familiares de chefes da facção criminosa Comando Vermelho, por cumplicidade na onda de ataques que ocorre na cidade desde o passado domingo. Márcia Nepomuceno, mulher de Marcinho VP, principal líder da facção, e Viviane Sampaio, mulher de Polegar, outro destacado membro do grupo criminoso, já foram presas, e dezenas de agentes procuravam ontem os outros acusados.
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