O pacote de medidas anunciadas pelo presidente Lula da Silva para o sector aéreo, abalado pelo choque de dois aviões em voo sobre a Amazónia em Setembro passado, que matou 154 pessoas, e pela colisão, terça-feira, em São Paulo, de um Airbus contra um prédio no Aeroporto de Congonhas, matando 200, foi considerado decepcionante e sem grande efeito prático no que respeita a segurança.
A construção de um novo aeroporto em S. Paulo foi a principal medida divulgada por Lula, que afirmou estar com o coração a sangrar pela tragédia. Mas o presidente anunciou ainda a transferência de 40% dos voos de Congonhas para outros aeroportos.
Um dos especialistas ouvidos, Jorge Leal Medeiros, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, considera que as duas medidas de emergência deveriam ser a construção imediata em Congonhas do grooving, ranhuras na pista que escoam a água e aumentam a aderência das aeronaves e também o chamado Arrestor Bed, barreira de contenção no final da pista. A falta do grooving, recorde-se, em Congonhas tem sido apontada como uma das causas mais prováveis do acidente com o Airbus, que derrapou na pista molhada e no final desta encontrou um relvado ainda mais escorregadio.
Entretanto, novos dados ontem revelados deram conta que o Airbus A-320 acidentado, que, já se sabe, voava há quatro dias com problemas no sistema de travagem, já tinha apresentado problemas antes. De facto, no passado dia 24 de Junho, o mesmo aparelho não conseguiu levantar do aeroporto da cidade de Recife na primeira tentativa e teve de fazer uma manobra muito brusca para parar quando já estava em alta velocidade.
FUNERAIS DAS VÍTIMAS
Ontem, um pouco por todo o país, repetiram-se cenas dramáticas de sepultamento de vítimas. Até agora, ninguém sabe o seu número total. Os bombeiros já resgataram do local da tragédia 188 corpos inteiros e vários pedaços de outros e calculam que pelo menos outras 20 pessoas ainda estejam sobre as toneladas de pedras e ferros calcinados. Refira-se que cães farejadores começaram também a ajudar nas buscas. A identificação continua muito lenta, dado o estado de destruição dos corpos, só tendo sido reconhecidas 41 vítimas.
Enquanto empresários de todo o Brasil proibiram os seus funcionários de usarem o Aeroporto de Congonhas em viagens de negócios, o Ministério Público deu à TAM um prazo de 15 dias para apresentar às famílias das vítimas, entre as quais a do português residente em Miami, Pedro Abreu, uma proposta de indemnizações. No total, de acordo com o Sindicato dos Correctores de Seguros de São Paulo, os pagamentos pelas cerca de 200 mortes devem orçar os 400 milhões de dólares.
PROTESTO SILENCIOSO
O descontentamento com a falta de condições de segurança do espaço aéreo brasileiro levou ontem familiares e amigos das vítimas do trágico acidente da noite de terça-feira no Aeroporto de Congonhas, São Paulo, a realizar uma manifestação silenciosa durante a qual se deitaram no chão com um cartaz ao peito exibindo o nome de um dos passageiros mortos. O protesto teve lugar no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre.
ENVIADA CAIXA PRETA ERRADA
A Força Aérea Brasileira (FAB) reconheceu ontem ter enviado uma caixa preta errada para análise no laboratório NTSP (National Transportation Safety Bureau), em Washington, nos EUA. O que as equipas de resgate nos escombros acharam ser a caixa preta que grava as conversas dentro da cabine do avião (CVR) na verdade é um gravador comum. O erro, acrescenta a nota, deveu-se ao péssimo estado em que se encontram todas as peças do Airbus que explodiu terça-feira ao chocar com um prédio em São Paulo e que provocou um incêndio com temperatura superior a mil graus. A FAB informou ainda que a outra caixa preta enviada aos EUA é realmente a que grava os dados técnicos do avião.
"NINGUÉM ME LIGOU"
O médico Maurício Pereira, de 50 anos, não consegue conter a revolta em relação à empresa TAM, proprietária do Airbus que chocou com um edifício em São Paulo e matou a sua filha, Mariana, de 22 anos, estudante de Medicina. Até ontem ninguém da companhia aérea lhe tinha ligado para dar os pêsames ou informações sobre o acidente. “Vou processar a TAM, o governo federal, quem quer que seja responsável pela tragédia. O dinheiro que obtiver será usado numa fundação, como a minha filha sonhava”, afirmou.
HERÓI SEPULTADO
Sérgio Dona viveu esta semana os quatro piores dias da sua vida. Tio de quatro vítimas do acidente com o Airbus, passou todo este tempo dentro do Instituto Médico Legal de São Paulo, a ver, um a um, os cadáveres que chegavam do local da tragédia. Ontem, procurando forças nem ele sabe onde, já tinha identificado Melissa, Márcio Rogério e Alanis Andrade, mas ainda não tinha conseguido identificar o quarto sobrinho, André Dona.
FRIO E INDIFERENTE
O primeiro encontro entre famílias das vítimas e o presidente da TAM, Marco António Bologna, foi tenso. Ele manteve a mesma postura fria que a empresa adoptou desde o primeiro minuto e os familiares ficaram indignados. Uma senhora não suportou tanta indiferença e tentou agredir o empresário com a mala de mão, sendo contida por outras pessoas, que, no entanto, não pouparam Bologna de críticas por deixar voar uma aeronave que ele sabia que tinha problemas mecânicos.
VIU O FILHO MORRER
Se a tragédia foi difícil para todas as famílias enlutadas, foi particularmente penosa para Lamir Buzzanelli, de 67 anos, pai do engenheiro Claudemir Buzzanelli Arriero, de 41 anos, morto no acidente. Lamir tinha ido buscar o filho ao Aeroporto de Congonhas, viu o avião derrapar, sabendo que o filho estava lá dentro, e explodir numa enorme bola de fogo segundos depois. “A TAM não pode apresentar uma aeronave com problemas e matar 200 pessoas” – afirmou revoltado Lamir.
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