Irão "gostaria de ser um Estado soberano e humilde, para que todos possam ter acesso a investimentos".
O embaixador do Irão em Lisboa defendeu, este sábado, que Teerão não está interessada em conflitos e argumentou que o país, "civilizado", quer atrair "turistas e não terroristas" e que tem um "grande potencial para investimento".
"O Irão é um país muito bom para investir. Algumas análises dizem que cerca 2.000 biliões de dólares [cerca de 1.715 biliões de euros] é um investimento muito grande. Eu acho que todos devem ver essa oportunidade nesta nação civilizada", afirmou Majid Tafreshi, considerando que as sanções impostas ao Irão, devido a "alegadas transgressões no programa nuclear" iraniano, deveriam ser levantadas.
"Podemos ser a base das aeronaves na região, porque temos uma excelente posição geográfica e geoestratégica. Isso era bom para todos. Não queremos ser uma armadilha para uma escalada pelo poder entre a China e os Estados Unidos", frisou o diplomata, em entrevista à Lusa.
Nesse sentido, salientou que o Irão "gostaria de ser um Estado soberano e humilde, para que todos possam ter acesso a investimentos".
"É isso que estamos a procurar. Estamos a procurar turistas, não terroristas. Estamos a procurar investimentos, não mais migrantes. Temos 6,7 milhões de migrantes e pessoas deslocadas para o Irão. É um grande desastre para a nossa economia", argumentou.
Por isso, defendeu, uma "boa política externa" é "curar a tensão", razão pela qual, justificoi, Teerão está a lutar e a apoiar movimentos como "o Hezbollah e outros" que defendem o seu próprio país, o Líbano, onde se "devia perguntar às pessoas por que eles têm representantes no parlamento".
"O Hamas é uma entidade criada pelos povos. O povo queria-os. Mas a sociedade ocidental não os reconhece porque eles querem ser independentes. Agora eles são considerados um grupo terrorista. Eu não me importo com isso. Estou a falar sobre a lei internacional, onde há o direito de declarar que se age em autodefesa num território ocupado", sustentou.
Tafreshi lembrou que, em 2004, o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) declarou que não se pode argumentar com a autodefesa numa terra ocupada, tal como não se pode declarar uma atividade terrorista num território ocupado.
"A atividade terrorista tem como objetivo produzir o medo. Mas parece que eles [Ocidente] dizem que vão perder o país. É isso a que a comunidade internacional deve responder", acrescentou.
"Acho que o cristianismo, o judaísmo e o islamismo nunca permitiram, baseando-nos na teoria, na Bíblia ou no Corão, matar pessoas inocentes. Não encontrei nenhuma exceção aqui, de que há permissão para matar pessoas. Então, usar e abusar de religiões aqui, por causa de algumas políticas, é totalmente errado", criticou.
E é aqui que entra a questão do programa nuclear iraniano, com Tafreshi a defender que o Irão manteve sempre uma "cooperação muito boa" com a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), acusando, contudo, o diretor-geral da instituição, Rafael Grossi, de se ter deixado influenciar pelo Ocidente.
"Grande parte do orçamento da AIEA é dedicado ao Irão, tendo havido uma cooperação muito boa. Mas, infelizmente, o diretor-geral dessa entidade, eu não sei, ou mentiu ou, de alguma forma, foi subornado, eu não sei por quê, ou influenciado por alguns países ocidentais, como os Estados Unidos, Reino Unido, a França, a Alemanha", entre outros, argumentou.
Segundo o embaixador iraniano em Lisboa, a AIEA lançou "um relatório muito errado" sobre o Irão, que é utilizado pelos Estados Unidos e Israel para atacar o Irão.
"Como pode o Irão ignorar o direito de enriquecimento [de urânio]? Se aceitamos que não temos direito de enriquecer o urânio, isso significa que aceitamos que acreditam que somos um perigo", considerou.
Tafreshi voltou a garantir os fins pacíficos do programa nuclear iraniano, algo que, sustenta, o ayatollah Ali Khamenei, líder supremo do Irão, e a doutrina do país considera "proibido", o mesmo sucedendo com armas biológicas e químicas, "porque quando são detonadas num qualquer lugar, morrem soldados e civis".
"A capacidade do Irão, o enriquecimento já está na capacidade dos 30, 40 países, entre eles a Alemanha e o Japão. Por que estão apenas focados no Irão? Esses são os jogos. Eles poderão produzir medo suficiente na região. Gostaríamos de decidir sobre a nossa região, entre nós mesmos. É por isso que estamos a lutar", concluiu.
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