Thibaut Bruttin considerou que o caso de Jimmy Lai representa um ponto de viragem para ambos os territórios.
A condenação do ativista pró-democracia Jimmy Lai a 20 anos de prisão em Hong Kong representa "um aviso" a Macau, onde jornalistas locais arriscam enfrentar pressões semelhantes, afirmou esta segunda-feira à Lusa o diretor-geral da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF).
Em declarações à Agência Lusa em Londres, Thibaut Bruttin considerou que o caso de Jimmy Lai representa um ponto de viragem para ambos os territórios, classificando-o como "um aviso assustador de que a repressão em Hong Kong inevitavelmente se espalhará para Macau", antigo território português sob administração de Pequim desde 1999.
"O destino das duas regiões administrativas está ligado. Historicamente, Hong Kong tinha uma imprensa mais livre e forte do que Macau. Mas qualquer sinal de repressão em Hong Kong tem um efeito assustador em Macau. A ideia agora é claramente estender o domínio de Pequim sobre ambos", vincou.
Bruttin acrescentou que o caso é também um augúrio para o que poderia acontecer se a China invadisse Taiwan.
Jimmy Lai, de 78 anos, fundador do extinto jornal Apple Daily, foi condenado sob a Lei de Segurança Nacional de Hong Kong de "conluio com forças estrangeiras" e "publicação de material sedicioso".
O tribunal, que citou mais de 160 artigos do Apple Daily como prova, decretou esta segunda-feira a sentença, dois meses depois de o veredicto de culpado ter sido emitido, em dezembro de 2025.
Os seis co-réus de Jimmy Lai, editores seniores e executivos do Apple Daily, receberam penas de prisão que variam de seis a dez anos. Dois outros ativistas pró-democracia, Chan Tsz-wah e Andy Li, também foram condenados, adiantou a RSF.
Bruttin considerou a pena de 20 anos de prisão aplicada a Jimmy Lai "calculada" e concebida para servir de "exemplo" para dissuadir jornalistas.
"Havia esperança de alguma clemência, dada a idade e a saúde de Lai", admitiu à Lusa, argumentando, porém, que "a mensagem é clara: qualquer pessoa que ouse questionar a autoridade enfrentará o mesmo destino".
O líder dos RSF manifestou esperança que esforços diplomáticos "nos bastidores" possam influenciar o futuro de Jimmy Lai, nomeadamente a intervenção do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que recentemente anunciou que pretende visitar a China em abril, e de governos europeus, em especial o Reino Unido e França.
Jimmy Lai é cidadão britânico e o seu caso foi discutido recentemente pelo primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, num encontro com o Presidente chinês, Xi Jinping, no mês passado.
"Precisamos de encontrar uma solução diplomática", vincou Bruttin, que não quer que a pena de 20 anos "se torne uma sentença de morte para Jimmy Lai, como aconteceu com o vencedor do Prémio Nobel da Paz [em 2010] Liu Xiaobo", que morreu em 2017.
Numa conferência de imprensa esta segunda-feira em Londres, o advogado de direitos humanos Jonathan Price, membro do grupo internacional de advogados de Jimmy Lai, descreveu o processo como "um julgamento de três anos marcado por atrasos e injustiça processual".
"O resultado nunca esteve em dúvida, mas a sentença de 20 anos para um homem de 78 anos é equivalente a uma sentença de morte", lamentou, alertando que a reputação de Hong Kong como uma jurisdição segura e baseada no Estado de direito foi destruída.
Para Price, Jimmy Lai "é o prisioneiro político mais famoso do mundo atualmente" e, enquanto estiver na prisão, "Hong Kong não poderá, de boa fé, promover-se como uma jurisdição baseada no Estado de direito e favorável ao investimento".
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