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Correio da Manhã

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Sapos descontrolados

De cor verde, pernas longas e aos saltos, não mostraram dó nem piedade quando decidiram ocupar a Austrália, provocando o receio entre os habitantes locais, incapazes de travar a invasão. O cenário é em tudo idêntico e um qualquer filme de ficção científica, mas os protagonistas não são extraterrestres e sim... uma espécie de sapos.
28 de Fevereiro de 2006 às 00:00
Os biólogos não têm palavras para explicar os factos, que parecem ir contra as mais básicas teorias da evolução. Mas os anfíbios, introduzidos em Queensland em 1935 para combater pragas, conseguiram transformar-se em poucos anos e adquirir novas características, como as pernas mais longas, que lhes permitem chegar cada vez mais longe.
Os amantes de pernas de rã podem aplaudir o facto de terem mais para comer, mas os especialistas consideram a descoberta alarmante. É que a evolução significa que não só os sapos se podem espalhar pelo continente australiano com mais facilidade, mas ainda que, dadas as condições ideais, a evolução animal pode ocorrer em apenas décadas, como o que aconteceu com os sapos.
As implicações deste facto, descrito por uma equipa de cientistas na revista ‘Nature’, são importantes para os animais, mas também para os humanos, sobretudo os que apostam em determinadas espécies para controlar pragas. A partir de agora, já não há garantias que o método não se possa transformar, por si só, num problema.
CADA VEZ MAIS RÁPIDOS
Richard Shine, biólogo da Universidade de Sydney, não tem dúvidas de que o objectivo dos sapos é apenas um: chegar mais longe, a territórios por explorar e o mais depressa possível. Uma certeza que resulta de um encontro com um grupo destes anfíbios, que lhe cortaram o caminho quando circulava por uma estrada em direcção a Darwin.
Desde então, apesar de ser especialista em cobras, decidiu conhecer melhor os sapos que seguiu e analisou durante anos, concluindo que são capazes de se deslocar até uma distância de dois quilómetros por noite. E não só tinham pernas mais compridas, como os que saltavam mais depressa conseguia os melhores charcos. Aos outros restava apenas continuar o caminho ou morrer.
E é o que têm feito. Cada vez mais depressa. Longe vão os onze quilómetros anuais que percorriam em 1950. Hoje, correm em média 48. Um esforço que, acreditam os especialistas, prova que quando as condições mudam, os animais se adaptam.
O BICHO QUE SE TRANSFORMOU NUMA PRAGA
Matam cobras, lagartos, pássaros aquáticos e até mesmo crocodilos. E poucos são os que os conseguem matar, uma vez que são tóxicos para a maioria dos animais. Pertencem à espécie ‘bufo marinus’ e ninguém é capaz de contabilizar quantos são, ao todo, na Austrália. Os especialistas falam em milhões, que ocupam mais de 500 mil metros quadrados daquela nação, com uma densidade de qualquer coisa como dois mil sapos por hectare nas regiões mais a Norte.
Fazem criação em qualquer local com água, onde depositam uma grande quantidade de ovos várias vezes por época.
Em 1935, a Austrália decidiu comprar esta espécie de sapos, para fazer frente a uma praga de insectos que atacava a produção de canas de açúcar. Ao todo, foram comprados 102, que se reproduziram e foram libertados nos canaviais. No entanto, porque não conseguiam saltar alto, os sapos foram incapazes de eliminar os bichos, tornando-se numa praga.
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