Há um mês, a jornalista italiana Giuliana Sgrena foi raptada. Pela “resistência iraquiana”, como disse uma jornalista da SIC mas eu chamaria aos raptores simplesmente bandidos. Ela apareceu num vídeo, destroçada, pedindo piedade. Eu acho que é mais uma canalhice feita aos raptados passarem publicamente vídeos desses (em Portugal, foi transmitido recentemente um de outra jornalista, a francesa Florence Aubenas). É próprio dos bandidos fazerem o vídeo, está dentro da lógica do negócio. Emociona a opinião pública, pressiona os governos a arranjarem mais depressa o dinheiro do resgate. Já às televisões não cabe, naturalmente, esse papel de humilhar um homem ou uma mulher em situação de desespero.
Eu, numa situação igual à dos raptados, provavelmente também imploraria. Mas, hoje, que sou um homem e não um farrapo, sou contra que a gravação se tornasse pública. Um dia de 1977, em Angola, vi na televisão um comissário provincial de Luanda, caído em desgraça por estar envolvido num golpe, a auto-acusar-se de “assassino e traidor”. A câmara fixava-lhe a cara tumefacta e os olhos aterrorizados dele procuravam à esquerda e à direita pessoas que não se viam. O temor dele era certo, seria assassinado. Nunca mais esqueci aquele homem. Mais tarde, repórter em locais de guerra, foi-me proposto entrevistar prisioneiros – recusei-me sempre fazê-lo porque as palavras que reproduzo devem ser de homens que as queiram livremente dizer.
A jornalista Giuliana Sgrena foi solta, na sexta-feira passada, por um pequeno grupo de homens corajosos, polícias italianos. Eram chefiados por um operacional famoso em Itália, Nicola Calipari. Pequeno, gentil, nos últimos tempos estava na secreta militar e trabalhava no vespeiro do Médio Oriente. Já fora ele a ir buscar as duas raptadas italianas conhecidas por as “Simone”. Ir buscar não é serviço de táxi, é entrar por zonas de guerra, tratar com bandidos nervosíssimos pelo contacto e ansiosos por receber o resgate (o de Giuliana estava nesse momento a ser pago no Kuweit).
Já com Giuliana no carro, os polícias e um motorista iraquiano dirigiram-se para o aeroporto de Bagdad a toda a velocidade. As notícias ainda não são certas, mas num ‘check-point’ americano o carro foi metralhado, o polícia Calipari foi morto e outro colega, ferido. A própria jornalista teve um tiro no ombro. O jornal para o qual ela trabalha, ‘Il Manifesto’, fez capa dizendo que o polícia foi assassinado. Porquê? Os soldados americanos atiraram, sabendo que iam naquele carro polícias italianos e uma jornalista ex-raptada? Eu não diria isso. O cenário mais verosímil é este: em Bagdad, onde são usuais atentados suícidas, um carro aproximou-se de um posto de controlo com velocidade imprudente e levou tiros.
Em situações extremas como as de guerra, as palavras certas são ainda mais caras e necessárias.
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