Já não é primeira vez que o faz. Todavia, a dimensão internacional do problema e a vergonha pública gerada não deixaram ao Papa outra alternativa, outro caminho. Ainda assim é justo dizer que é uma atitude nobre e de coragem, perante o sofrimento de muitas vítimas e famílias, que querem e esperam acções visíveis de condenação firme e não, apenas, palavras. Este pedido de perdão do Papa tem um duplo significado: o da justiça divina e o da justiça dos homens.
Por muito que custe aos ensinamentos da Igreja Católica e às exigências morais do evangelho, os abusos sexuais cometidos contra jovens menores e indefesosnãodesaparecemcomactosde compaixão ou de fé. A fé cristã ficou indelevelmente abalada por mais cem anos de cristianismo na terra. E é por isso que na justiça divina e na justiça dos homens não pode haver perdão para os sacerdotes e religiosos que com estes actos bárbaros envergonharam a Nação dos Cristãos.
A dimensão humana do perdão, que não é mais do que um processo mental ou espiritual de fazer cessar o sentimento de ressentimento ou de raiva para com alguém, não pode acolher os crimes de abuso sexual, que estão para além do minimamente aceitável no código de valores pelo qual se regem os homens. A máxima, de que nos fala Raul Seixas, de que para todo o pecado sempre existe perdão, não é verdadeira para estes crimes que infligiram sofrimentos profundos às vítimas, levando-as, muitas vezes, ao desespero do suicídio, como já sucedeu na Austrália. A boa-nova do evangelho de que Jesus pagou o preço dos nossos pecados, com a sua morte na cruz, não pode libertar do pecado e da culpa estes ‘vampiros’, que a coberto de espalharem a palavra do ‘Senhor’ violaram sexualmente menores.
Como é que a Igreja se pode curar deste mal e se reconciliar com os fiéis? Só pugnando pela responsabilidade e pela condenação veemente dos seus autores, quer na justiça divina quer na justiça dos homens. O pedido de desculpas é insuficiente. As vítimas só serão purificadas e só se sentirão recompensadas no dia em que os abusadores, os pedófilos, forem banidos da Igreja e colocados na prisão.
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