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Seria uma grande insensatez não reconhecer o talento e a tenacidade de Paulo Portas na vida política portuguesa. Ele foi sem dúvida, pesem embora todas as acusações que chegam da banda do PSD, um guerreiro que não deu tréguas aos seus adversários nos meses que antecederam as eleições, estudou sempre muito bem todas as lições, foi perspicaz na análise de cada situação e hábil na transformação das fraquezas em forças. Eu duvido que no panorama actual exista outro político com a capacidade que Portas evidenciou para dar vida ao CDS agonizante que recebeu das mãos de Manuel Monteiro. Os resultados eleitorais espelham bem esta situação e demonstram à sociedade como Portas não só garantiu os seus resultados (os melhores de sempre do CDS) como potenciou a performance do PSD ao assumir com grande inteligência o papel de "caterpillar" da coligação no combate com o PS. Eu creio que se não existisse Portas o PSD poderia até não ter ganho as últimas eleições. Não admira por isso que Durão Barroso, até novos desenvolvimentos, se mostre tão generoso com Portas, fazendo ouvidos de mercador às declarações contundentes de alguns "pesos-pesados" do PSD sobre o líder do CDS. Mas o que é dramático nesta tragicomédia é que o herói de ontem desapareceu nas brumas deste tempo. Implodiu. Deixou de se ouvir a sua voz, os dixotes dilacerantes que tanta irritação causavam aos seus opositores, o sentido de oportunidade que lhe era tão próprio na percepção do que "o povo gosta". Perdeu-se o estratega, o combatente, o comunicador televisivo (um dos melhores de sempre na política nacional).

Portas já não é sequer um pálido retrato do Portas fulgurante e temido que todos conhecemos. Está em silêncio, num beco sem saída, com olhar medroso, incapaz de produzir qualquer movimento, sem capacidade de comando nem vontade de luta. Toda a força de que dispunha foi sugada até à última gota e a imagem que passa de si agora é a de um escorraçado, um homem sem esperança, no corredor da morte, à espera da sentença final. Que contraste tão brutal ! No seio da coligação já não representa nada. Durão Barroso dá as cartas como entende e já nem precisa de consultar o parceiro de coligação para as grandes e as pequenas decisões. No Governo, na privacidade do seu gabinete, vai fazendo o que pode, na área que lhe está adstrita. Mas Portas é hoje um ministro sem chama, sem energia para discutir ou alterar o rumo das coisas. O beneficiário é de novo Durão Barroso que tem um ministro tímido e inibido de cumprir a sua função de ministro de Estado e que portanto manobra este Portas "liliputiano" como qualquer marioneta no restrito palco de um teatro trágico de bonecos. No CDS, em terreno próprio, Portas é também um dirigente diminuído. Os jornais, os boatos, os processos desgastam--no a tal ponto que, lentamente, vai perdendo o património político que amealhou em tempo recorde. A debandada já começou, embora ainda não se note muito, e os seus "incondicionais" começam a vacilar. O CDS pode voltar à agonia de outros tempos porque não é fácil a sua substituição. Se Portas cair, creio que passará muito tempo até que o CDS volte a ter um líder tão dedicado e inteligente. A hipótese Lobo Xavier que o PSD tem na manga, pelo menos a nível da reflexão interna, para salvar a coligação e o Governo, é uma solução tão frágil que nada mudará. Lobo Xavier é um homem novo mas tão acomodado à boa vida, no cruzamento de tantos interesses empresariais, que para mexer um braço precisa de pedir licença ao outro. Xavier depois de Portas só pode significar a absorção do CDS-PP pelo PSD. A tentação de sempre. O risco de sempre.

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A Moderna está a matar Portas. Devagarinho, como mandam as regras da tortura chinesa. Portas acha que vai sobreviver a este percalço e alimenta ainda uma secreta esperança de que a tempestade vai passar. Mas o que se lê nos jornais não indicia bonança. Se Portas passar de testemunha a arguido, os seus dias estão contados. E vai sair mal, empurrado para a praça pública. O que me surpreende num líder com a força e a coragem que Portas exibiu é a forma como se agarra desesperadamente ao poder e não bate com as portas. Quem foi grande tem que ser sempre grande.

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