Ao longo da vida já fui ‘espectador’ forçado de actos que me pareciam absurdos, quase impossíveis, mas depois constato, na sua crueza, que estão muito para além daquilo que a minha imaginação seria capaz de inventar. Talvez por isso julgo que seja devido um agradecimento ao aluno que, embora envolvido na mesma bandalheira, resolveu gravar as imagens e o som do incidente que ocorreu na Escola Carolina Micaelis, no Porto. É que, confesso, eu não conseguiria formatar na sua verdadeira dimensão aquilo que a televisão me mostrou mais tarde. Claro que já tinha na minha posse relatos de violência e falta de respeito nas escolas. Mas aquilo ultrapassa todas as medidas.
Aquilo ocorreu numa escola portuguesa mas é cena típica de tabernas, depois de muito álcool ingerido, ou de casas de prostitutas quando as ditas perdem as estribeiras e se envolvem em lutas ferozes, ou de bairros degradados onde as leis e o civismo não ‘funcionam’ e onde, de repente, se começa uma batalha campal ‘por dá cá aquela palha’. O que mais me impressiona naquele filme dantesco é a total desconsideração e falta de respeito de um aluno por um professor. Chega a causar arrepios, fúria e raiva e está nos antípodas do ambiente de uma escola, seja ela apreciada em África, na Europa, na Ásia ou até noutro planeta qualquer. Aquilo é tudo menos uma escola onde os alunos vão aprender o que quer que seja, porque a primeira coisa que se aprende na escola é a consideração e o respeito pelo professor.
Aquilo é um campo de batalha, é Sodoma e Gomorra, é a vilanagem suprema praticada nos bairros de lata, é um quadro da ‘Cena do Ódio’, do Almada Negreiros... Espero e desejo que aquela aluna, que gritava à sua professora à medida que a ia esfrangalhando, seja expulsa. Não se pode contemporizar com esta indisciplina, falta de respeito, falta de tudo... Julgo que a expulsão deve ser só a medida mínima a aplicar. Se puder ser incriminada e passar por uma casa de correcção, porque julgo que ainda é menor, é ainda uma punição leve que fica longe da violência praticada. Aquele ‘espectáculo’ mostrado ao País, logo a todos os alunos, tem de ser severamente punido para que sirva de exemplo.
Ontem, a este propósito, li no ‘DN’ declarações de um miúdo de 18 anos que se auto-intitula membro da ‘Plataforma Directores Não’ e que diz que a dita ‘Plataforma’ foi fundada a 9 de Fevereiro e que os promotores foram as associações de estudantes das escolas Camilo Castelo Branco, D. Leonor e Alberto Neto. Afirma que há ‘bufos’ nas escolas e que neste momento qualquer aluno que se manifeste contra as medidas do Governo e do Ministério da Educação é alvo de um relatório que é entregue às direcções de Segurança e de Educação do Ministério da Educação. Diz ainda que foi à manifestação de 31 de Janeiro e que a nomeação de directores para as escolas é mais uma 'demonstração da escola antidemocrática que existe em Portugal'.
O movimento vai reunir-se na próxima terça-feira e já conta com nove associações de estudantes. A pergunta óbvia é: quem é que anda a destabilizar as escolas secundárias e a usar os miúdos nestas andanças, fazendo nascer movimentos para que não haja, ou não se respeite, ou não se aceite a figura do director? Desconfio que para além dos alunos ultra-indisciplinados há professores que também precisam de ser expulsos das escolas. Em Democracia não vale tudo.
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