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Na primeira crónica que aqui assinei, ensaiava-se - o Brasil é sempre uma boa chave para abrir as "conversas" - uma despedida de Cássia Eller. O motivo era o seu notável disco póstumo, "Dez de Dezembro", meses depois chegado a Portugal. Agora, à distância que separa Janeiro de Setembro, já é possível garantir que outra "guerreira" aparece no lugar de Cássia: chama-se Ana Carolina e vê lançado em Portugal o seu terceiro álbum, "Estampado" (ed. BMG). Um sublinhado inteligente do que deixou para trás ("Ana Carolina" de ‘99, "Ana Rita Joana Iracema e Carolina" de ’01), um passo em frente no alargamento dos "recursos" apresentados por uma cantora que entre os dois primeiros capítulos cresceu o suficiente para passar da abertura em espectáculos colectivos ao estatuto de figura de encerramento, reservado às "estrelas".

Nos discos de desbravamento, Ana Carolina afirmou sobretudo a voz e mostrou ao que vinha, reconvertendo ou fazendo "explodir" canções de vários patrimónios - António Carlos Jobim, Chico Buarque, Edu Lobo, Lulu Santos, Frejat (Barão Vermelho), Arnaldo Antunes (um dos Tribalistas, ex-Titãs, autor de primeira também a solo), Herbert Vianna (Paralamas do Sucesso), Adriana Calcanhotto, Alvin L., Paulinho Moska e John (do grupo mineiro Pato Fu) integravam a gama de disponibilidades nesse arranque de carreira.

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Ao mesmo tempo, era revelado um parceiro privilegiado na praça das canções: Totonho Villeroy. Agora, ao terceiro andamento, sobe a percentagem de escrita pessoal, se bem que ainda aqui passem "eleitos" como Celso Fonseca, o enorme Chico César, Vítor Ramil e o omnipresente Seu Jorge, um dos vértices da nova geração. Paralelamente, Ana Carolina faz subir o tom de intimismo (autobiográfico?) das suas canções, deixando escapar o que parecem ser as "dores de crescimento" inerentes a uma subida vertiginosa da exposição e ao que, em leitura exterior, surge como uma fase conturbada de paixões e amores. A vantagem é que tudo isto se transmite com uma convicção invulgar e cada uma das canções ganha a dose de identificação que, a seu tempo, pode ser chamada à vida de cada um.

Musicalmente, não se espere a revolução. A produção, clássica e encorpada, é do veterano Liminha, há sublimes arranjos de cordas do genial Eumir Deodato e de Lui Coimbra. Mas, já com as cores outonais, este é um daqueles discos que vai correndo sem o sobressalto de um falhanço, com os temas a ganharem insuspeitas amplitudes à segunda ou à terceira escuta.

Ana Carolina continua a fazer ressoar a sua voz profunda e grave (vem do fundo da mina… ou de Minas Gerais) mas ganha os pormenores de uma grande intérprete. Num momento (mais um…) de renovação, com nomes como os de Vanessa da Mata, Fernanda Porto ou Luciana Mello, ela marca posição, viajando entre a suavidade ("Encostar Na Tua", "Só Fala Em Mim"), a raiva nada surda ("2 Bicudos" e "Uma Louca Tempestade", quase ao jeito de Cássia), o "rock" ("Elevador"), a "bossinha" ("Vestido Estampado") e o "neo-samba" ("O Beat da Beata"). Dá para tudo e ainda bem. Mas sempre em nome próprio.

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A poucos dias do novo "An Echo Of Hooves", chega "The Definitive Collection" (ed. Topic), de JUNE TABOR. Precisamente dez anos depois de "Anthology", mantém o nível da primeira compilação. Com uma vantagem: não há, entre os 15 temas (que incluem incursões pelas Silly Sisters, June com Maddy Prior, e por um disco de Ashley Hutchings), nenhum repetido. Vale, assim, para viciar os não iniciados na mais fantástica voz nos terrenos da "folk" e da música de raiz. Superior.

Poder-se-iam invocar Sétima Legião e Madredeus. Nem é preciso: desde "Ave Mundi Luminar" e até "Pasión", a carreira a solo de RODRIGO LEÃO chega para tornar mais do que recomendável a presença nos concertos do próximo fim-de-semana (dias 19 e 20), no Tivoli de Lisboa. Uma oportunidade de ouro para encostar os ouvidos a uma música que não quer saber de correntes nem tendências, uma das que ainda rende a "sensação das cordilheiras".

Haverá quem, por hábito ou "dever de ofício", defenda "Blemish" (importação directa, ed. Samadhi Sound) como a nova obra-prima de DAVID SYLVIAN. Confesso que não partilho da opinião: apesar da genialidade reconfortante da voz, o disco parece preguiçoso e a puxar ao "avant-garde" de pacotilha. Falta enquadramento, abusa-se de uma variante "minimalista", crescem as saudades de "Secrets Of The Beehive" ou de "Dead Bees On A Cake". Custa dizê-lo, mas este é um passo em falso de um "anjo caído".

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Já apanhei a meio a iniciativa da FNAC, dedicada à Euro Music (Espanha, França, Bélgica...). Confesso que esperava mais e melhor de uma iniciativa que poderia suprir a imensidão de falhas do nosso mercado nesses quadrantes. Mas arriscou-se pouco. Duas boas excepções à mediania: "Tu Vas Pás Mourir de Rire", dos franceses Mickey 3D, e "Camino Real", do projecto belga e dançante BUSCEMI, com as vozes de Michael Franti e da sempre bem-vinda Isabelle Antena. Excelentes. Mas e o resto?

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