Ao contrário do que se poderia supor perante a esmagadora vitória da coligação Estados Unidos-Reino Unido no Iraque, alguns sectores da ‘intelligentsia’ portuguesa ainda se não renderam nem ao erro clamoroso dos seus vaticínios catastrofistas nem à realidade insofismável desse resultado. Em vez de reconhecerem que David, sendo efectivamente um tigre de papel, debilitado e fanfarrão, não tinha condições mínimas para defrontar um Golias não menos fanfarrão mas muito mais musculado (onde se viu uma funda derrubar um míssil?) ainda se dedicam ao exercício, quase quotidiano, de destacar as derrotas pontuais das forças anglo-americanas: as cartas do baralho baaísta que ainda não foram encontradas e, acima de tudo, o facto de, quanto a armas de destruição maciça, químicas ou biológicas, nem vê-las.
Não sei até que ponto o eco dessas vozes, que entre nós chegam aos corredores de S.Bento, fará tremer a Casa Branca, o Congresso americano, o número 10 de Downing Street ou os Comuns. Talvez a Internacional Socialista, ainda presidida pelo nosso ex-primeiro-ministro Guterres, esteja no segredo dos deuses e por isso oscile entre as críticas ao republicano Bush e o apoio ao trabalhista Blair, dando assim, como é uso dizer-se, "uma no cravo, outra na ferradura". Mas uma coisa posso afirmar: que armas de destruição maciça sejam ou não encontradas é algo que deixa perfeitamente indiferente o cidadão comum.
Vejamos porquê. A assunção de o regime de Saddam Hussein possuir armas de destruição maciça não surgiu do nada, não foi produto das lucubrações ovais do sr. Bush nem da imaginação dos prestimosos falcões seus ajudantes. O Iraque possuiu efectivamente esse tipo de armas, que não se coibiu de usar contra os seus odiados vizinhos iranianos e contra as suas vítimas de estimação, os curdos. A única dúvida que se pode colocar a este respeito é a seguinte: destruiu ou não destruiu essas armas?
Vamos admitir que sim. Mas, neste caso, será alguém tão ingénuo a ponto de acreditar que um regime criminoso como o do partido Baas teria algum escrúpulo em conservar as fórmulas, preservar as instalações e guardar os componentes necessários para as voltar a produzir? É evidente que não.
Mas admitamos que as não destruiu. Nesse caso, se ao longo de anos conseguiu enganar o confuso sr. Blix e os inspectores da ONU, especialistas em procurar agulha em palheiro, por que diabo iriam os marines ou o exército, ambos preparados para combater e não para vasculhar ou fazer ensaios laboratoriais, encontrá-las em meia dúzia de semanas?
O Iraque é um grande país, cuja superfície costuma ser comparada com a da França, embora na realidade seja menor. As tropas da coligação concentraram-se no domínio das cidades principais, junto às margens do Tigre e do Eufrates. E o resto do país? E o deserto ocidental?
Não podemos esquecer que na cultura árabe é frequente a alusão a subterrâneos, a túneis, a cavernas. Nas ‘Mil e Uma Noites’ até se fala de sumptuosos palácios existentes no subsolo. O conceito de bunker, que em termos ocidentais parece recente, já existia na Mesopotâmia há milhares de anos. E, ainda há pouco tempo, técnicos portugueses trabalharam em instalações subterrâneas em Bagdad. Mas não é tudo. Se tais instalações secretas existem algures no deserto, não é menos de considerar a hipótese de terem sido transferidas para laboratórios móveis, que andaram a trocar as voltas aos inspectores das Nações Unidas.
Mas então, pergunta aquela minoria de desesperados compatriotas, se tinha as armas, por que motivo Saddam as não utilizou? Bem, se ele de facto as possuia, mas afirmara peremptoriamente não as ter, nunca poderia utilizá-las sem perder a face. E isso, ele jamais o faria.
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