A expressão brasileira "…xa comigo" foi citada pelo economistaLadislau Dowbor, na Fundação Gulbenkian, a convite da Comissão Nacional Justiça e Paz.
Este modo de dizer serviu-lhe bempara caracterizar a atitude do despachante que sossega o cliente e o liberta de qualquer preocupação, o anestesia para a participação.
O apelo para reagir ao "deixa comigo" situa-se a nível da democracia política.Os políticos exercem mala sua função se concentram em si os processos decisórios e dizem ao povo "deixa comigo". Os gestores dos bens económicos e das coisas públicas em função de quem governam? Das pessoas? Como definem as prioridades?
Vimos o que é que deu o mercado a resolver por si, sofremos as consequências do "deixa comigo" do mercado à solta…
Os cidadãos não podem deixar de exercer a sua dimensão política como actores e intervenientes, sobretudo em associações e organizações que valorizem as melhores energias que existem dentro de cada um de nós. Só com uma cultura de participação encontraremos sistemas de pactos públicos para a qualidade de vida, com respeito pelas futuras gerações.
Se nos distraímos e aceitarmos o "deixa comigo" dos caciques autárquicos ou nacionais, que despacham os assuntos por nós, seremos responsáveis pelas inércias na resolução do que nos tornaria a vida mais feliz sem comprometer o futuro.
A dificuldade de encontrar convergências e consensos para corrigir as desigualdades sociais crescentes, para reformar substancialmente o capitalismo com indicadores ambientais levados a sério, para decidirmos localmente as medidas que nos abrem a uma vida mais sóbria e serena, não nos dispensa de participar, de nos apropriarmos da política.
Os actos eleitorais seriam desaconselháveis se significassem a autorização para o "deixa comigo" dos profissionais da acção política.
O nosso futuro beneficiará muito do desenvolvimento de sistemas descentralizados de gestão, que Ladislau Dowbor tem defendido, e que requerem a atenção e participação do maior número possível.
Confio que está a aparecer uma nova geração capaz de corrigir as deformações pretensamente científicas de alguns economistas e a capacitar e mobilizar as pessoas para encontrar novas soluções muito concretas e locais para dar mais alegria à sua vida.
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