Ontem o governo Australiano pediu perdão pelas atrocidades cometidas no passado contra os aborígenes.
A desculpa apresentada pelo governo australiano aos aborígenes vale o que vale, mas é necessária; representa um passo tímido e por ora até nem custa nada, clarificado que foi que não haveria indemnizações (clarificação inusitada e, no mínimo, cínica).
O pedido de perdão não põe um ponto final num processo absolutamente miserável, mas representa uma mudança de atitude. Bem sei que há algo em tudo isto que se prende com a ‘imagem do país’ mas, ainda assim... melhor do que nada. E também é evidente que é muito pouco se pensarmos que existem gerações literalmente roubadas aos seus em nome de uma superioridade a que só os leves de espírito se julgam com direito.
Também é igualmente evidente que ‘a desculpa’ não vai acompanhada do tanto que é preciso para pôr cobro à cultura de exclusão e subvalorização a que os aborígenes estão votados. São um povo humilhado na ruptura da sua cultura e identidade, induzido ao álcool e ao desemprego e, como há números que falam por si, basta pensar que segundo dados oficiais australianos a esperança média de vida dos aborígenes é cerca de 25 anos inferior à dos brancos australianos.
Chocou-me, por isso, o carácter encantatório da cerimónia no Parlamento australiano, onde demasiados rostos anglo-saxónicos evidenciavam à saciedade que, de facto, ainda está tudo por fazer (chocou-me quase tanto como o facto de ainda existir um membro do governo para os assuntos aborígenes).
Há uns anos, em Darwin, dei comigo a pensar que a cidade tinha escolhido um nome adequado: o olhar vazio dos aborígenes, aqui e ali, não fixava coisa alguma. E coisa alguma era o resultado de uma idiota ideia de superioridade.
As culturas de superioridade fazem sempre um mal diabólico à Humanidade e deixam-lhe rasgões fundos na carne.
Muito longe dos efeitos devastadores das culturas de superioridade andam as culturas de leviandade. Ainda assim perniciosas. E campeiam entre nós.
As culturas da leviandade representam uma geração roubada ao exercício da responsabilidade.
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